Adaptação e uma nova vida nos EUA

O ativista chinês cego Chen Guangcheng esforça-se para aprender inglês e Direito, pois quer voltar à China e participar das mudanças em seu país

É JORNALISTA, WILLIAM, WAN, THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, WILLIAM, WAN, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2012 | 03h08

A aula de inglês começa com uma revisão do vocabulário: "igual", "verdade", "liberdade", "evidente". Depois vem o termo mais difícil de ser pronunciado: "direitos inalienáveis".

As palavras às vezes soam como sandices para Chen Guangcheng, mas ele as repete diligentemente, rolando-as na boca como se quisesse saborear seu significado.

Cinco vezes por semana, sob a orientação de um professor de inglês, na Escola de Direito da Universidade de Nova York, Chen usa a Declaração de Independência como livro de texto provisório. Para uma pessoa que está aprendendo a língua do zero, o documento de 236 anos às vezes é uma leitura difícil, mas seu conteúdo causa forte impressão num homem que passou a maior parte da década passada na China lutando pelos direitos de seus concidadãos. Chen acha que os conceitos inseridos na Declaração são aqueles que ele mais necessita para o trabalho que tem à frente, de modo que insiste, decompondo as sílabas para facilitar: di-rei-tos i-na-lie-ná-veis.

Há um mês terminou a impressionante saga que trouxe o ativista cego e sua família para os Estados Unidos, depois de semanas de negociações entre diplomatas americanos e chineses. Essas conversações terminaram com um acordo permitindo que Chen deixasse a China para estudar no exterior.

Hoje, o advogado autodidata de 40 anos e sua família ainda estão se adaptando às mudanças - do confinamento num quarto de paredes nuas em que eram mantidos pelas autoridades da Província de Shangdong, para seu novo apartamento de três quartos em Greenwich Village, assessorados por uma comitiva de orientadores, professores de Direito, especialistas em relações públicas, tradutores e seguranças.

Embora o foco sobre eles tenha diminuído um pouco, Chen e a família ainda procuram se esquivar de uma avalanche de partes interessadas: agentes, políticos, jornalistas, acadêmicos e grupos de ativistas.

Recebem telefonemas de grupos bem-intencionados (grupos de ajuda a pessoas incapacitadas quiseram lhe dar um cão-guia, cristãos sino-americanos ofereceram sua casa de férias) e também daqueles que têm interesses mais pessoais (produtores de Hollywood insistem em comprar os direitos de sua história para um filme e inúmeros programas de TV matinais vêm competindo para contratar a nova celebridade).

Chen tem rejeitado esses pedidos para se concentrar em duas coisas: seus estudos e a segurança dos membros de sua família na China que, ele acredita, podem ser alvos de retaliação por parte das autoridades chinesas.

Oportunidade. Embora algumas pessoas imaginam que seus planos para estudar no exterior foram apenas um recurso para permitir que ele deixasse a China, Chen aproveita a oportunidade com a mesma persistência que o transformou de um camponês cego, em um sistema em que os incapacitados são amplamente marginalizados, num ativista reconhecido internacionalmente.

O inglês, disse ele numa rara entrevista na segunda-feira, é a chave para sua nova vida - para ele se fazer compreender, manter a relevância como ativista chinês no exterior, compreender o sistema legal americano e as lições que ele oferece à China.

"A China está a caminho do estado de direito e da democracia, e quando esse tempo chegar, conceitos como este terão um papel vital", afirmou em mandarim.

A mulher de Chen, Yuan Weijing, que aprendeu um pouco de inglês na China, participa das aulas diárias de duas horas que ele assiste, como também das aulas de Direito, que começaram na semana passada.

"Pode fazer uma frase usando a palavra "verdade"?", perguntou o professor na aula de segunda-feira.

"Um mais um, igual a dois. Esta é uma verdade", Yuan respondeu.

"Precisamos... buscar a verdade", Chen entrou na conversa.

"Muito bom! Agora, você consegue fazer uma frase com a palavra vida"?

"Vida é um di-rei-to i-na-lie-ná-vel", Chen respondeu, agora um pouco mais rápido. "Vida... é a coisa mais preciosa", diz sua mulher.

As aulas de Chen sobre direito americano têm uma tendência similarmente filosófica. O currículo foi adaptado especialmente para ele pelo professor Jerome Cohen - considerado o padrinho e o maior especialista em lei chinesa nos Estados Unidos. Sob a vigilância de Cohen e seu colega o professor Frank Upham, Chen lentamente prossegue seus estudos da Declaração de Independência na direção da lei constitucional americana - um caminho que ele considera fundamental para seus objetivos.

Essa transição marcou o momento fundamental em que um ato político - os americanos se declarando livres da tirania - resultou numa sociedade civil regida pelo direito, algo que ainda deve ocorrer na China.

No momento, Chen tem cautela em falar dos atuais problemas da China.

"A cautela orienta tudo o que fazemos", ele admitiu.

Disse que espera voltar à China quando completar os estudos - perspectiva que dependerá em parte do que ele disser ou até que ponto levará seu ativismo nos Estados Unidos.

Esse retorno é fundamental para ele, afirmou. É a razão de estar estudando tão intensamente agora, apesar da frustração com seu progresso nas aulas de inglês e de Direito.

Ele diz acreditar que as mudanças estão chegando na China e conceitos ainda abstratos como "direitos inalienáveis" inevitavelmente se tornarão uma realidade no futuro. E deseja estar lá, como testemunha e participante.

"Hoje estamos num ponto em que qualquer coisa é possível", afirmou em mandarim.

Então, mudando mais tarde para o inglês, para enfatizar o aprendizado, ele repetiu, com um sorriso, as palavras "igual", "liberdade", "evidente".

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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