Adesão de meninas ao EI preocupa governos europeus

Garotas são atraídas por promessas de trabalho humanitário e ao chegarem na Síria são obrigadas a casar com jihadistas

O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2014 | 14h47

PARIS - Foad, um caminhoneiro francês de origem marroquina, viajou sozinho para a Síria para resgatar a irmã de 15 anos de um grupo islâmico que, segundo ela, a mantinha como prisioneira. Mas, quando ele finalmente ficou frente a frente com a irmã, ela não quis ir embora.

Foad está convencido de que a irmã Nora, que ele descreveu como uma adolescente impressionável que amava filmes da Disney antes de ir para a Síria em uma tarde de janeiro, ficou por lá porque foi ameaçada de morte pelo comandante, ou emir, do grupo ao qual se uniu.

A ex-estudante colegial está entre dezenas de garotas europeias, muitas delas da mesma idade, que vivem com grupos extremistas na Síria. É um aspecto do conflito que começa a preocupar governos europeus, anteriormente focados no fluxo de homens jovens que passavam a integrar as tropas do Estado Islâmico e de outros grupos.

Muitas das garotas mais jovens são atraídas com promessas de trabalho humanitário, mas ao chegar na Síria, descobrem seu destino: casamento forçado com um combatente, estrita aderência à lei Islâmica, uma vida sob vigilância e pouca esperança de retornar para casa, de acordo com pais, parentes e especialistas em radicalização.

"Quando ela me viu entrar naquela sala, não conseguia parar de chorar e me segurar. Em um momento, eu disse 'então, você vai voltar comigo'", afirmou Foad, de 37 anos. "Ela começou a bater a cabeça na parede dizendo, 'eu não posso, eu não posso, eu não posso'".

Foad, que pediu para não ter o nome completo divulgado em razão da proteção da família na França, não quis divulgar o local do encontro, seguindo orientações da polícia francesa, para não revelar detalhes relevantes à investigação.

O francês disse ter ouvido uma conversa entre a irmã e o emir que sugeria que ela fora alertada a ficar na Síria. Nora havia repetidamente pedido à família, por telefone, para ser resgatada das mãos dos militantes, quem chamou de "hipócritas" e "mentirosos".

Enquanto governos ocidentais têm se concentrado em milhares de voluntários jihadistas homens que foram para a Síria e para o Iraque, autoridades da área de segurança na Europa têm expressado preocupação sobre um pequeno, mas estável, fluxo de grupos femininos para os mesmo lugares.

Compondo até 10% de todas as partidas para as áreas controladas pelos islamitas radicais, de acordo com autoridades do governo e especialistas em terrorismo, as jovens são vistas como prêmios por combatentes ávidos para se casar.

Ocidentais adolescentes são frequentemente observadas por recrutadoras mais velhas, que ficam na Europa e usam mídias sociais, telefonemas e falsas amizades para convencê-las a fazer trabalho humanitário em regiões devastadas pela guerra. Algumas meninas precisam de menos convencimento porque estão ansiosas por participar no que acreditam ser uma jihad, ou guerra sagrada.

Embora as mulheres não lutem - mesmo que algumas formem unidades policiais - as casas delas são próximas de zonas de combate e expostas a bombardeios da aviões da coalizão internacional montada para combater o Estado Islâmico. Mulheres têm poucas esperanças de escapar caso tenham algum arrependimento.

Foad disse que todo o contato com a irmã foi cortado desde a visita em maio. "Das jovens que acompanhamos, nenhuma voltou viva para casa", disse Dounia Bouzar, uma antropóloga francesa encarregada de uma missão para impedir candidatas de ir para a jihad. / REUTERS

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