Etienne Laurent/EFE
Etienne Laurent/EFE

Adeus Hollande

Os 10 minutos durante os quais explicou sobriamente porque se viu obrigado a desistir da disputa alteraram todo o tabuleiro político

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2016 | 05h00

O presidente François Hollande nos deu adeus na noite de quinta-feira. Sua provisão de oxigênio se esgotou. Hollande há meses não emitia uma única palavra e de repente a França inteira o ouviu. Alguns com raiva, mas a maioria com emoção. 

Os inúmeros e entediantes discursos de Hollande jamais conseguiram dobrar a realidade, modificar o curso das coisas. Eis que os 10 minutos durante os quais explicou sobriamente porque se viu obrigado a desistir da disputa alteraram todo o tabuleiro político. Esse simples comunicado fez circular de novo o sangue no corpo lânguido da esquerda francesa, essa esquerda cujos desacertos de Hollande, suas incoerências, suas convicções, em seus quatro anos e meio de reinado, tornaram uma ruína disputada por uma dezena de ávidos “barões”.

A questão é essa: estamos a cinco meses da eleição presidencial. O enorme vazio deixado pela queda de Hollande permitirá ao Partido Socialista, ou à esquerda, reencontrar força suficiente e muita vontade para apresentar um candidato aceitável face a dois outros já conhecidos: Marine Le Pen, líder da direita fascista, e François Fillon, líder da direita dura?

O campo da direita tem um problema mortal: na ausência de um líder incontestável (que deveria ser Hollande) ela se dividiu em vários “bandos”, uma dezena deles. Enquanto cada uma das duas direitas consegue se fixar num único campo unido e disputar a eleição como um corpo compacto, a esquerda é um conglomerado de franco-atiradores liderados por “chefetes”.

A primeira urgência é indicar o futuro candidato à eleição. O que não será tranquilo. Uma dezena de “falastrões” reclama para si o termo esquerda, que Hollande contribuiu para desonrar. Resumindo, podemos distinguir uma “esquerda” que entende que os tempos mudaram desde Karl Marx e gostaria de impor ao partido socialista uma modernização comparável àquela que Gerhard Schroeder fez há 15 anos entre os socialistas alemães. Os defensores desta esquerda são Hollande (hoje fora do jogo) e seu atual primeiro ministro Manuel Valls.

Entre as outras variações da esquerda podemos citar os “socialistas de esquerda”, que sempre acham que estão em 1936, os “rebeldes” que foram os críticos mais violentos de Hollande. Há também o “partido de esquerda”, que rejeita a etiqueta socialista e defende soluções revolucionárias. Esse partido tem um líder formidável, Jean-Luc Mélenchon, o único grande orador da classe política francesa. E há também o Partido Comunista, o pobre.

Há evidentemente dois partidos trotskistas e um outro minúsculo, que se odeiam. E temos também um candidato solitário, Emmanuel Macron, jovem e antigo banqueiro, brilhante, simpático, apoiado apenas por ele mesmo, mas que nas pesquisas já tem o dobro de votos de todos os seus concorrentes de esquerda.

A saída de Hollande suscita mais uma questão: essa multidão de homens de esquerda, todos querendo uma chance para disputar a eleição presidencial, conseguirá sufocar os ódios e indicar um candidato único? Essa dezena de partidos de esquerda, se somados, reúnem menos partidários do que um único partido de direita (o Republicanos) de François Fillon ou a Frente Nacional de Marine le Pen. Se, ao contrário, partirem para o combate dispersos, então será um salve-se quem puder.

Eis porque o primeiro dever dos socialistas, após a partida de Hollande, é se reconciliar. Não tenhamos ilusões: mesmo que consigam se unir, serão sem dúvida derrotados por Marine Le Pen ou François Fillon. Mas se, unindo-se em torno de um único líder, conseguirem uma boa votação, sem muito brilho, mas não totalmente nula, podemos esperar que o partido continue respirando. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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