Adeus, Salam Fayyad

A demissão do primeiro-ministro palestino é uma mensagem negativa em tempos de Primavera Árabe

THOMAS, FRIEDMAN , THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA , THOMAS, FRIEDMAN , THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA , O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2013 | 02h03

No dia 13, renunciou o primeiro-ministro da Autoridade Palestina, Salam Fayyad. O fato poderia facilmente passar despercebido, mas não pode ser ignorado. Foi uma notícia péssima, porque Fayyad encarnava a Primavera Árabe antes que existisse uma Primavera Árabe. Ele era o objetivo ao qual os levantes iniciados em 2011 deveriam conduzir: uma nova geração de líderes árabes honestos, cuja principal preocupação é o desenvolvimento de seu povo e não o enriquecimento da própria família, tribo, seita ou partido.

É realmente desolador o fato de a marca de Fayyad - líder incorruptível, centrado nas instituições - não ter apoio suficiente de outros políticos palestinos, dos Estados árabes, de Israel e dos EUA. E isso não será de bom auspício para as revoluções do Egito, da Síria ou da Tunísia. Quem é ele? Ex-economista do FMI, começou a se destacar quando foi nomeado ministro das Finanças da Autoridade Palestina, em 2002, depois que os doadores se cansaram de ver suas contribuições desviadas pela corrupção. Pouco depois de Fayyad tornar-se primeiro-ministro, em 2007, cunhei o termo "fayyadismo": o conceito segundo o qual a legitimidade de um líder árabe deve ter por base não os slogans ou a resistência a Israel e ao Ocidente, nem o culto à personalidade, mas um estilo de governo responsável, transparente, honesto.

"Fayyad acabou com todos os 'caixas 2' e contrariou as ordens de Yasser Arafat, insistindo em pagar todos os agentes de segurança em contas bancárias diretas - e não com dinheiro vivo dado aos seus comandantes", escreveu Daoud Kuttab, um conhecido jornalista palestino, no The Jewish Daily Forward. Ele foi ainda o primeiro a preocupar-se em reativar os serviços de segurança palestinos na Cisjordânia, obtendo o respeito até dos militares israelenses, e em tentar estabelecer instituições.

O Hamas odiava Fayyad e diversos funcionários da AP tinham inveja dele, mas o sucesso o protegeu até 2011. O presidente Mahmoud Abbas, frustrado pelo fato de a direita israelense ter recusado um acordo com base na troca de terra pela paz, decidiu buscar o reconhecimento do Estado palestino na ONU. Em retaliação, os EUA cortaram a ajuda e Israel os imitou, retendo a receita dos impostos palestinos.

Achei uma tolice Abbas ir à ONU, mas foi uma irresponsabilidade o Congresso americano cortar a ajuda aos palestinos - sendo que Washington jamais sancionou a estratégia ainda mais obstrucionista de Israel de construir assentamentos. A perda de centenas de milhões de dólares em ajuda foi um desastre para a economia palestina. Funcionários públicos deixaram de receber e Fayyad foi obrigado a impor uma política de austeridade. Abbas e outros da velha guarda do seu partido usaram Fayyad como bode expiatório. Finalmente, ele renunciou.

Disso tudo tirei quatro conclusões. Primeiro, os palestinos, que fizeram de seu executivo mais eficiente um bode expiatório, jamais terão um Estado se não houver lugar para um Fayyad em sua liderança. Segundo, o Hamas e os colonos israelenses estão felizes agora. Terceiro, tiro o chapéu para o Congresso americano e o governo israelense. Seus irracionais cortes de ajuda a Fayyad contribuíram para acabar com o melhor parceiro para a paz.

Por último, "não há nada inevitável numa ordem liberal que brotou desse despertar árabe", afirma Craig Charney, autor de pesquisas de opinião. Na realidade, conseguir esse resultado exige alguém como Fayyad, com uma ajuda consistente de fora, bem como uma base interna leal, disposta a ver o seu fim. No final, Fayyad não teve nem uma nem outra. Mais um prego no ataúde da solução de dois Estados. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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