Adiamento de sanções na Otan mostra força de Putin durante crise ucraniana

Nos bastidores políticos, líderes ocidentais mostraram-se desnorteados diante da proposta de paz que surpreendeu a Europa e os EUA

Andrei Netto, Correspondente, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2014 | 02h01

PARIS - Paris havia suspendido a entrega de navios de guerra à Rússia e diplomatas europeus se reuniam em Bruxelas para debater novas sanções contra a Rússia quando Moscou apresentou, na quarta-feira, um plano de cessar-fogo na Ucrânia. Adotada durante a cúpula da Otan e antes da adoção de represálias econômicas, a estratégia mostrou mais uma vez, segundo analistas, quem dá as cartas na crise ucraniana: Vladimir Putin.

A eficiência da jogada da diplomacia russa pôde ser medida na sexta-feira, quando diplomatas de Washington e Bruxelas decidiram adiar para amanhã o anúncio de novas sanções. Nos bastidores, líderes ocidentais se mostraram desnorteados diante da proposta de paz que pegou a Europa e os EUA de surpresa.

A saia-justa foi ainda maior diante da pronta acolhida da oferta pelo presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, que viu no cessar-fogo uma saída honrosa no momento em que suas Forças Armadas eram derrotadas em Donetsk e em Luhansk, dois bastiões separatistas.

O resultado é que, na noite de sexta-feira, enquanto o Ocidente lançava ameaças contra o Kremlin, Putin posou como o estadista que leva a paz à Ucrânia, mesmo depois de supostamente infiltrar tropas e tanques, reforçando forças separatistas pró-Rússia.

"Não há como negar que o cessar-fogo foi uma boa iniciativa", disse ao Estado Jean-Pierre Maulny, analista do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), de Paris. "Insistir na ofensiva militar foi um erro. Putin não abandonará jamais o leste da Ucrânia. Recuperá-la pela força é impossível, porque não está de acordo com os objetivos do Kremlin."

Para Maulny, mesmo após cinco meses de um conflito que deixou mais de 2,6 mil mortos, da queda do voo MH-17 e de imagens de satélite que indicaram a infiltração de tropas russas no território ucraniano, ainda assim é Putin quem dá as cartas na crise do país.

Por isso, segundo Maulny, o fim da crise na Ucrânia passa pela solução política imposta por Moscou. "O cessar-fogo só durará se uma solução política for encontrada entre Rússia, Ucrânia e, em certa medida, o Ocidente. Caso contrário, o conflito continua", disse. "Se Moscou considerar ser do seu interesse que o conflito seja retomado, poderemos ficar presos aos combates por muito tempo."

Para a maior parte dos analistas europeus, o desenlace da crise passa pela desmilitarização do leste da Ucrânia e pela maior autonomia - senão independência - das regiões de Donetsk e Luhansk. Essa saída, que Putin chama de "federalização" ou de "solução estatal", seriam as únicas palatáveis para o Kremlin e seu objetivo: minar a capacidade da Ucrânia de se tornar um parceiro político, econômico e militar do Ocidente.

Essa possibilidade tornou-se ainda mais forte depois que a Ucrânia provou não poder vencer o conflito militar e após a Otan descartar uma intervenção para ajudar Kiev. O recado é claro: a exemplo das regiões da Transdniester, Abkházia, Ossétia do Sul e Crimeia, onde movimentos separatistas foram incentivados pelo Kremlin, o Ocidente não está disposto a brigar pela integridade territorial da Ucrânia.

"Putin foi criativo. Utilizou tropas que não eram suas, separatistas pró-Rússia, voluntários e provavelmente mercenários", explicou à revista L'Express o cientista político Olivier Kempf, do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris, para quem Moscou conta com a falta de interesse da Europa e dos EUA em se envolver em um conflito militar que seria imprevisível. "A tensão entre Rússia e Ocidente é real, mas ela não estrutura mais as relações internacionais como durante a ordem bipolar."

Na Europa, poucos analistas acreditam que o Ocidente deva apostar no enfrentamento contra Putin. Um deles é Alexandre Melnik, professor da ICN Business School Nancy Metz, da França. "A adesão da Ucrânia à Otan é a única resposta ocidental capaz de conter o expansionismo de Putin", escreveu Melnik em artigo ao jornal Le Monde. "Está cada vez mais claro que sua estratégica ultrapassa a Crimeia, Donbass e envolve a Ucrânia inteira, que ele pretende anexar ao mundo russo, incompatível com o Ocidente."

Mais conteúdo sobre:
RússiaMoscouPutinOtan

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.