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Adiamento é ‘terrível’ e agrava crise na Venezuela, diz Serra

Para ministro das Relações Exteriores do Brasil, tentativa de impedir a realização de referendo revogatório é passo autoritário do chavismo

Cláudia Trevisan, Enviada Especial a Nova York, O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2016 | 21h04

A decisão das autoridades eleitorais venezuelanas de retardar a realização de um referendo revogatório para, no mínimo, o próximo ano é “terrível” e aumentará a radicalização e o confronto no país, disse nesta quinta-feira ao ‘Estado’ o ministro das Relações Exteriores do Brasil, José Serra. O chanceler brasileiro ressaltou que a situação na Venezuela é “grave” e a demora na consulta popular vai torná-la ainda mais difícil. 

Se o referendo fosse realizado antes de 2017, seriam convocadas novas eleições para definir o substituto do presidente Nicolás Maduro, caso seu mandato fosse revogado. Mas se a consulta ocorrer no próximo ano, o eventual sucessor de Maduro seria seu vice-presidente. Pela Constituição do país, Maduro tem poder de definir o ocupante do cargo, o que Serra classificou de “aberração”.

O ministro embarcou nesta quinta-feira de volta ao Brasil depois de uma viagem de cinco dias a Nova York, onde acompanhou o presidente Michel Temer na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e teve encontros com 11 chanceleres de outros países e da União Europeia (UE). 

No domingo, ele participou de reunião de ministros das Relações Exteriores do Mercosul, para a qual a Venezuela não foi convidada. Ontem, o ministro disse que Caracas não tem “nenhuma presença” no bloco que reúne Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. “É uma fantasia”, afirmou.

Na terça-feira, líderes de cinco países bolivarianos e da Costa Rica boicotaram o discurso de Temer na Assembleia-Geral da ONU, em protesto contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Quatro deles estavam no plenário e saíram de maneira ostensiva quando o presidente brasileiro se preparava para discursar. Raúl Castro, de Cuba, e Evo Morales, da Bolívia, nem chegaram a entrar no local.

A adesão ao protesto do presidente da Costa Rica, Luis Guillermo Solís, surpreendeu Serra, que orientou o Itamaraty a convocar o embaixador do país no Brasil para explicações sobre o gesto. O ministro disse que pessoas de sua geração consideram um “escândalo” o alinhamento entre Costa Rica e Cuba no boicote. “Sabe contra quem Fidel (Castro) mais brigava? Contra a Costa Rica, porque era pró-Estados Unidos.”

Aproximação. Dentro de duas semanas, Serra receberá em Brasília o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, que criticou o processo de impeachment no Brasil ainda antes do afastamento definitivo da ex-presidente Dilma Rousseff, mas não deu declarações depois do encerramento do processo. “Estamos agora com uma boa relação”, disse Serra.

Almagro foi um dos convidados para o almoço de Temer com empresários e investidores americanos organizado pelo Americas Society/Council of the Americas, na quarta-feira. 

O secretário-geral da OEA é um dos mais contundentes críticos da Venezuela na região, mas sua agenda no Brasil deverá incluir uma questão prática: a dívida de US$ 18 milhões do Brasil junto à organização. Serra ressaltou que o governo já pediu recursos para pagar as contribuições atrasadas e aguarda decisão do Congresso.

Uma das reuniões bilaterais de Serra em Nova York foi com o novo secretário das Relações Exteriores do Reino Unido, Boris Johnson, um dos líderes da campanha do Brexit que levou a saída do país da UE. No encontro com o britânico, Serra defendeu a negociação de um acordo de livre comércio entre os britânicos e o Mercosul – o bloco discute há décadas tratado semelhante com a União Europeia. Segundo ele, o britânico gostou da ideia.

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