EFE/Marina Militare
EFE/Marina Militare

Família judia abriga refugiado sírio em Berlim

Filho e neto de nazistas, Chaim Jellinek e sua mulher, Kyra, apostam em colaborar com integração de imigrantes como solução para ‘crise’

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2016 | 06h00

As cenas da massa que chegou à Europa por mar e atravessou suas fronteiras em trens lotados, a pé por trilhos e campos, dormindo ao relento, no último ano, compõem o retrato do maior êxodo desde a 2.ª Guerra. Essas duas pontas da História se encontraram agora no universo privado de um apartamento espaçoso no coração de Berlim. 

Ali, vivem o médico judeu alemão Chaim Jellinek, a mulher dele, Kyra, três dos quatro filhos do casal e, desde novembro, o jovem muçulmano Kinan, refugiado sírio que a família acolheu em casa.

Jellinek e Kyra, como Kinan hoje, tiveram suas vidas profundamente afetadas pela guerra. Mas vítimas de tragédias distintas. A família de Kyra sobreviveu ao Holocausto no gueto de Budapeste. Já o marido, Jellinek, nasceu e cresceu em uma família nazista, filho e neto de integrantes do Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães, de Adolf Hitler. O pai lutou Operação Barbarossa, a invasão alemã da União Soviética na 2.ª Guerra.

Ele se converteu ao judaísmo e adotou novo nome quando a mulher engravidou do primeiro filho, após um longo período de revisão do próprio passado. “Perdi minha família muito tempo antes de conhecer Kyra. Chegamos a um ponto em que meu pai achava que eu deveria defender o nacional-socialismo. Ele nunca falou sobre a máquina industrial de matar pessoas montada por Hitler, não o ouvi defender o extermínio de judeus, esse não era um assunto em casa. Mas assim que passei a pensar por mim mesmo, comecei a indagar sobre o que sua geração e a do meu avô fizeram. E entendi que meu avô era, sim, um criminoso.”

Jellinek rompeu com a família e saiu de casa aos 20 anos. Quando conheceu Kyra, uma década depois, Jellinek tocava em uma banda punk e tinha se tornado um ativista antifascismo “sem nenhum pensamento religioso”. A gravidez do primeiro filho trouxe de volta fantasmas do passado. “Comecei a pensar no significado da família e no que gostaria de deixar para os filhos”, diz. Foi então que decidiu se converter à religião dela. “Porque o maior símbolo do judaísmo é a família”, diz. 

Ele reencontrou o pai apenas uma vez, quando estava morrendo. “Mas já não havia mais conexão entre nós. Nada.” Ao olhar para trás, hoje, julga-o também como vítima. “Ele foi abusado psicologicamente e teve a juventude roubada pelo meu avô e pelos nazistas.” 

Recomeço. Foi para escapar do serviço militar que o sírio Kinan, de 28 anos, que trabalhava como farmacêutico em Damasco, decidiu arriscar-se pelo longo caminho até o refúgio na Europa. Ele deixou Damasco após ser convidado a se alistar no Exército do presidente Bashar Assad. Kinan prefere não usar o sobrenome, por temer represálias contra parentes que continuam na Síria. “Na mesma noite da convocação, eu fugi. Atravessei a fronteira por terra para o Líbano. De lá, fui para Turquia. Depois, você já sabe”, diz.

Em novembro, Kinan chegou ao abrigo de emergência para refugiados vizinho ao colégio judaico onde os filhos de Jellinek estudam. “Houve um momento em que não havia mais lugar para receber todo mundo. Então, mobilizamos a escola em um mutirão. Os alunos, judeus, fabricaram camas para refugiados muçulmanos dormirem em um local do outro lado da rua”, conta Jellinek. 

Quando o filho mais velho saiu de casa para a universidade, Jellinek e a mulher convidaram Kinan para morar com eles. “No verão do ano passado, líamos nos jornais que a Alemanha estava sendo invadida. A linguagem não era a de que havia pessoas fugindo de uma guerra, mas pedintes de asilo sobrecarregando os serviços alemães. Isso me fez perceber que o pensamento do meu pai e avô sobrevivera ao tempo. Então, nos demos conta de que precisávamos fazer algo”, diz. “E, se defendemos a integração de refugiados, nada mais natural do que começar em casa. Tínhamos um quarto vazio, afinal.”

Adaptação não foi difícil, com exceção da língua:

No início, Kinan estranhou. “Mas em duas semanas eu já me sentia em casa”, diz. “Ficamos muito surpresos, porque num período muito curto parecia que o Kinan sempre esteve com a gente”, concorda Chaim. Ele lembra que o Holocausto não é ensinado nas escolas da Síria e Kinan confessa que conhecia pouco sobre o nazismo e os judeus. “O que eu sei é que a guerra criou uma divisão, que antes não existia, entre curdos, sunitas, xiitas, cristãos e esse é o problema da Síria hoje”, diz. “Para mim, todos deveriam viver juntos e em paz, não importa sua etnia ou religião.” 

Kinan aprendeu a cozinhar no refúgio e ajuda a família a preparar o jantar para o shabat e, como todos os dias, junta-se a Chaim Jellinek, Kyra, Rosa, de 18 anos, Joshy, de 12, e Lili, de 8, em torno da mesa. “Nós não queríamos que nossos filhos passassem pelo tipo de experiência que nós passamos e começamos a pensar em como poderíamos construir a imagem positiva de uma família judia e, ao mesmo tempo, não esquecer o que aconteceu no Holocausto”, diz Jellinek.

A família frequenta uma sinagoga reformista em Berlim. “Existem 12 mil judeus na cidade, com visões tão variadas quanto toda a sociedade”, avalia o pai. 

“Se por um lado muitos estão se engajando para colaborar com os refugiados, a direita conservadora populista está usando isso para aterrorizar as pessoas. O governo de Angela Merkel, ao mesmo tempo em que prometeu abrir suas fronteiras, está selecionando os que quer receber aqui: jovens e graduados.” Outros refugiados, que não tiveram as mesmas oportunidades, estão “largados”, afirma Jellinek. 

“Estão à espera de uma definição, sem perspectiva, em centros de emergência horrorosos, com vinte pessoas em um espaço de vinte metros quadrados, como nos hangares do Aeroporto de Templeholf. Esse senso de ‘utilidade’ atribuído a seres humanos, essa pergunta ‘em que essas pessoas podem nos ser úteis?’ é uma questão que vem do nazismo.”

 

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