Gali Tibbon / AFP
Gali Tibbon / AFP

Adversário de Netanyahu reúne apoio mínimo no Parlamento para chegar ao poder em Israel

Premiê vê ex-aliados se distanciarem após evocar pandemia do coronavírus para chamar governo de emergência e suspender atividades de tribunais na véspera de um julgamento contra ele; Gantz conta com o aval de 61 dos 120 deputados

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2020 | 20h14

JERUSALÉM - O presidente israelense, Reuven Rivlin, confiará a Benny Gantz, principal rival do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, a tarefa de formar um governo, tendo recebido o apoio da maioria dos deputados. O anúncio ocorreu em meio a críticas de líderes políticos locais contra uma decisão de governo de Bibi de suspender as atividades dos tribunais por causa do coronavírus, um dia antes de um dos processos de corrupção contra ele começar a ser julgado.

O apoio a Gantz veio após o Lista Unida, de maioria árabe, com 15 deputados, e o laico de extrema direita Nosso Lar, liderado por Avigdor Lieberman, com sete assentos, indicarem o líder centrista para liderar o Parlamento. Juntaram-se a eles os 33 deputados do Azul e Branco, de Gantz, e os seis das siglas de centro-esquerda Labor-Guesher e Meretz.

Ainda não está claro se Gantz será capaz de formar um governo. Liberman e os líderes da Lista Unida se recusaram anteriormente a aceitar a liderança do centrista. Agora, porém, eles podem deixar as diferenças de lado para atingir o objetivo comum de derrubar Netanyahu.

Há quase um ano, o país passa por uma paralisia política, com três eleições em que o Likud, de Bibi, e o Azul e Branco não conseguiam a maioria.

As consultas de Rivlin aos líderes dos partidos ocorreram em um dia tumultuado na política israelense. Alegando emergência por causa do coronavírus, o ministro a Justiça escolhido por Netanyahu, Amir Ohana, decretou a suspensão de julgamentos pelos tribunais – uma das acusações de corrupção contra o primeiro-ministro começaria a ser julgada amanhã. A ordem para a suspensão foi dada na madrugada.

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As acusações contra Netanyahu incluem fraude e quebra de confiança. Ele é acusado de aceitar subornos de magnatas da comunicação, incluindo presentes caros e uma cobertura favorável a sua gestão, em troca de favores governamentais.

Após a repercussão negativa da medida, mas ainda tentando se manter no cargo, Bibi acenou para oposição em mensagem a Gantz, na qual pedia ao líder do Azul e Branco para “se juntar a um governo nacional de emergência” liderado por ele mesmo. Na proposta, Bibi afirmou que iria liderar o país por dois anos e depois permitir que Gantz assumisse o cargo de primeiro-ministro. Rivais Netanyahu já haviam rejeitado pedidos semelhantes, dizendo não acreditar que o primeiro-ministro iria cumprir a promessa.

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Em resposta, Gantz respondeu, pelo Twitter, que não aceitava “manipular” a opinião pública. “Se você (Netanyahu ) está interessado em unidade, por que adiar seu julgamento à 1 da manhã e enviar um esboço de ‘unidade de emergência’ à imprensa, em vez de enviar sua equipe de negociação para uma reunião? Ao contrário de você, continuarei apoiando todas as medidas governamentais apropriadas (contra o coronavírus), deixando de lado as considerações políticas.”

Outros líderes políticos também criticaram a medida. “Temos a máfia aqui”, escreveu Yariv Oppenheimer, ex-diretor do Peace Now, uma entidade de esquerda, pelo Twitter. Nitzan Horowitz, líder do Meretz, disse que “tribunais e atividades parlamentares não devem ser suspensas, mesmo em emergências”. Ayman Odeh, líder do Lista Unida, disse estar preocupado com a democracia israelense. “Vemos o fascismo no regime”, disse, “não na sociedade, mas naquele que chefia o governo”.

Mesmo antes do anúncio de Ohana, os rivais de Netanyahu o acusaram de explorar a pandemia para consolidar seu poder e tentar forçar a formação de um governo de unidade nacional com ele no comando.

“Todos que nos criticaram quando avisamos que estávamos nos transformando na Turquia deveriam reconhecer que há a exploração cínica da crise do coronavírus”, escreveu, no sábado, no Twitter, Moshe Yaalon, ex-chefe do Exército e filiado ao Azul e Branco.

No início do dia de ontem, após a ordem de Ohana, mas antes do adiamento formal do julgamento de Netanyahu, Yaalon acrescentou: “O Azul e Branco quer erradicar o coronavírus, incondicionalmente e sem interesses políticos. O partido não pode ser cúmplice na eliminação da democracia por um réu que quer fugir da Justiça”.

Infectados seriam monitorados com tecnologia antiterror  

O desgaste de Netanyahu ficou ainda maior por causa das iniciativas para conter o coronavírus. Na noite de sábado, o premiê disse que iria rastrear cidadãos infectados usando tecnologia que havia sido empregada “na luta de Israel contra o terrorismo”. Com 200 casos registrados até ontem, o governo ordenou o fechamento de locais sagrados, cafés, restaurantes, academias, creches e instituições culturais. / NYT, EFE e AFP

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