Adversários atacam Humala no final de campanha no Peru

A campanha eleitoral no Peru chegou ao fim na noite de quinta-feira com os ânimos acirrados pelos fortes ataques dos adversários contra o líder nacionalista Ollanta Humala, um dos três principais candidatos à Presidência do país no próximo domingo. Tanto a advogada Lourdes Flores, apontada como a candidata favorita do setor empresarial e dos investidores estrangeiros, como o ex-presidente Alan García, candidato do tradicional Partido Aprista, acusaram Humala de representar uma ameaça para a democracia peruana. Flores, García e Humala aparecem embolados na frente nas últimas pesquisas de intenção de voto divulgadas antes do primeiro turno das eleições. A legislação eleitoral peruana proíbe a divulgação de pesquisas no país na semana anterior à votação. Nas sondagens divulgadas no último domingo, Humala aparecia em primeiro, com Flores em segundo e García em terceiro. Apesar das restrições da lei eleitoral, resultados de novas pesquisas acabaram revelados na reta final da campanha por agências de notícias internacionais. Uma das sondagens, realizada pela empresa CPI, indica que Flores teria ultrapassado Humala. Já uma outra pesquisa, conduzida pelo instituto Apoyo, sugere que o candidato nacionalista teria, na verdade, ampliado a vantagem sobre os adversários. Os números contraditórios revelam uma disputa acirrada no próximo domingo e confirmam a sensação de que nenhum dos candidatos terá votos suficientes para vencer a eleição já no primeiro turno. Além de contar com três nomes fortes na disputa, as eleições peruanas têm ainda outros 17 candidatos a presidente, o que faz com que seja ainda mais difícil para um candidato obter mais da metade dos votos válidos e evitar um segundo turno. Comícios No último dia da campanha, Lourdes Flores e Alan García realizaram comícios em Lima. Ollanta Humala, que já havia discursado na capital no dia anterior, preferiu encerrar a campanha na cidade de Arequipa, um de seus principais redutos eleitorais. Candidata pela coligação Unidade Nacional, Flores adotou uma postura mais agressiva na reta final da campanha e partiu para o ataque contra Ollanta Humala. Por diversas vezes, a advogada se referiu ao candidato nacionalista como um ?afilhado político? do líder venezuelano Hugo Chávez e disse que uma vitória de Humala colocaria em risco a liberdade dos peruanos. Alan García também não poupou críticas ao candidato da coligação União pelo Peru. O ex-presidente afirmou que Humala representa o ?perigo do extremismo, da desordem e da confrontação?. Montesinos Tenente-coronel da reserva, Ollanta Humala ganhou popularidade ao atuar como um dos líderes de uma rebelião militar contra o ex-presidente Alberto Fujimori, em 2000. Na reta final da campanha, os adversários de Humala denunciaram uma suposta ligação entre colaboradores de Ollanta e Vladimiro Montesinos, o ex-assessor de Fujimori acusado de corrupção no caso que derrubou o governo peruano em 2000. O candidato nacionalista, no entanto, negou a acusação e disse que a denúncia era uma tentativa associá-lo a Montesinos para ?demonizá-lo? e livrar a cara de Fujimori. ?Aceito diferenças ideológicas, mas não que haja ódios porque o ódio vai dividir mais o Peru, e isso é a última coisa que queremos para a nossa pátria?, acrescentou Humala. Retórica O discurso nacionalista de Humala, que costuma defender uma ?irmandade? com outros líderes sul-americanos como Hugo Chávez, atraiu as camadas mais pobres da população peruana, mas também despertou temores de que suas propostas possam afastar investidores estrangeiros. Humala defende a elaboração de uma nova Constituição para o Peru, ameaça rever contratos do governo peruano com multinacionais e é contra a ratificação de um tratado de livre comércio entre Peru e Estados Unidos. Além disso, Ollanta é filho de Isaac Humala, ideólogo do Movimento Etnocacerista, um grupo radical que defende a tese de que os herdeiros da cultura inca devem tomar o lugar da atual elite peruana, formada em sua maioria por brancos e asiáticos. Durante a campanha, Humala procurou moderar seus discurso e se afastar das idéias radicais do etnocacerismo defendido por sua família. Um dos irmãos de Ollanta, Ulises, é candidato a presidente por outro partido. ?Dizem que os investidores vão embora do país se eu chegar ao poder. Isso é totalmente falso?, disse Humala no seu último comício em Lima. ?Nós conversamos com empresários nacionais e estrangeiros, e ninguém está pensando em ir embora.? Para Jorge Valladares, coordenador-geral da associação civil Transparência, a própria retórica de Humala ajudou a criar um clima de forte polarização na disputa eleitoral peruana. ?Voltamos a discutir se devemos continuar em um esquema de governos de partidos tradicionais ou buscar uma nova opção, que é o que Humala proclama representar?, disse o dirigente da entidade peruana. A sombra de Chávez O apoio de Hugo Chávez ao candidato nacionalista Ollanta Humala transformou o presidente venezuelano em um dos principais temas da campanha para as eleições gerais do próximo domingo no Peru. De um lado, Humala procurou associar sua imagem à popularidade que o líder venezuelano desfruta em boa parte da América Latina e disse que espera consolidar, com Chávez e o líder boliviano Evo Morales, uma ?grande família latino-americana?. De outro, os adversários de Humala condenaram a interferência de Chávez no processo eleitoral peruano e apontaram a união dos dois como um risco para a democracia e o desenvolvimento econômico do Peru. "Chávez é o que nós podemos chamar de um fenômeno midiático", afirma o português Luis Nunes, diretor do Instituto Nacional Democrata no Peru. Para Nunes, o líder venezuelano representa na região hoje o que o presidente de Cuba, Fidel Castro, representava há algumas décadas: uma figura de grande apelo popular, capaz de despertar admiração em alguns e rejeição em outros. "Os mecanismos que ele utiliza são discutíveis, mas ninguém pode negar que ele tem popularidade, assim como Fidel Castro no seu tempo", avalia o analista político.

Agencia Estado,

07 Abril 2006 | 10h01

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