Filippo Monteforte/AFP
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Advogada pró-acolhimento substituirá Salvini no governo italiano

Desconhecida do grande público e sem páginas nas redes sociais, Luciana Lamorgese foi escolhida devido a seu perfil 'técnico' e ao desejo do novo governo de marcar uma ruptura em relação à gestão de Salvini no Ministério do Interior    

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 16h48

MILÃO - O período de Matteo Salvini no comando do Ministério do Interior da Itália ficou marcado por dois controversos decretos que desmontaram o sistema nacional de acolhimento de migrantes e refugiados e pelo uso intensivo das redes sociais para disseminar um discurso alarmista em relação aos fluxos migratórios.    

Sua sucessora no cargo, no entanto, não poderia ter perfil mais diferente. Luciana Lamorgese, advogada às vésperas de completar 66 anos, foi nomeada ministra do Interior pelo premiê Giuseppe Conte, agora líder de uma coalizão entre o populista Movimento 5 Estrelas (M5S) e o centro-esquerdista Partido Democrático (PD).    

Desconhecida do grande público e sem páginas nas redes sociais, Lamorgese foi escolhida devido a seu perfil "técnico" e ao desejo do novo governo de marcar uma ruptura em relação à gestão de Salvini no Ministério do Interior.    

Nascida em Potenza, sul da Itália, em 11 de setembro de 1953, Lamorgese é advogada de formação e iniciou sua trajetória na pasta responsável pela segurança pública em 1979. Nesse período, seus cargos de maior visibilidade foram os de chefe de gabinete do ministro Angelino Alfano (2013-2017) e prefeita da Província de Milão (2017-2018).    

O comando do Ministério do Interior é a primeira função de natureza política na carreira de Lamorgese, que sempre reservou bastante atenção ao tema das migrações, cavalo de batalha de Salvini. Em um raro pronunciamento quando comandava a Província de Milão, ela defendeu políticas de acolhimento e disse que quem "foge da fome tem direito de buscar melhores condições de vida".    

Essa posição, se for de fato adotada no novo governo, marcará uma reviravolta em relação a Salvini, que aboliu a permissão de estadia por motivos humanitários na Itália e traçava uma clara distinção entre refugiados que escapam de guerras e migrantes que fogem da pobreza.    

Em 2017, Lamorgese ajudou a definir um plano de acolhimento envolvendo todas as cidades da Província de Milão, já que a maior delas enfrentava problemas causados pela grande quantidade de migrantes concentrados na Estação Central, onde tentavam entrar em trens rumo ao norte da Europa.   

Além disso, anulou medidas implantadas por prefeitos do partido ultranacionalista Liga, liderado por Salvini, para multar quem hospedasse solicitantes de refúgio. "Sempre vemos prefeitos que às vezes não fazem sua parte, e eu digo a eles que é importante aceitar a diversidade e fazer a integração", afirmou na ocasião.   

Por outro lado, Lamorgese sempre teve um posicionamento mais duro em relação a ocupações abusivas e ao "decoro" das cidades. Em seu período como chefe da Província de Milão, efetuou 127 reintegrações de posse. A nova ministra, tida como moderada, também manteve boas relações com a prefeitura de Milão, comandada pela centro-esquerda, e com o governo da região da Lombardia, que está nas mãos da Liga.  

 Questionado em uma emissora de rádio sobre sua sucessora, Salvini disse que "julga as pessoas pelos fatos", mas ressaltou que espera que a nova ministra "não tenha a intenção de desmontar o trabalho no tema da imigração".  

Embora bastante vago, o programa de governo entre PD e M5S defende a "definição de normas contra o tráfico ilegal de pessoas", mas cita abertamente a necessidade de se abordar o tema da integração de migrantes e refugiados, aspecto sempre ignorado por Salvini. / ANSA 

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