Advogado de iraniana condenada desaparece

Parentes de Mostafaei foram presos para obrigar que responsável pela defesa de condenada à morte por apedrejamento se entregue ao governo

, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2010 | 00h00

CAIRO

A Anistia Internacional acusou o governo do Irã pelo sumiço de Mohammad Mostafaei, advogado de Sakineh Mohammadi Ashtiania, a mulher condenada à morte por apedrejamento por adultério. Ele está desaparecido desde sábado e, segundo a Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã, sua mulher e cunhado foram presos no mesmo dia "como medida de pressão para que ele se entregue".

Mostafaei, advogado especialista em direitos humanos, defendeu outras 13 pessoas condenadas à morte por apedrejamento no Irã, das quais 10 estão em liberdade, e ofereceu-se voluntariamente para cuidar do caso de Sakineh. A mulher de 43 anos foi condenada por manter "relações ilícitas" com dois homens após a morte do marido e teria confessado o adultério após receber 99 chibatadas.

A condenação ganhou destaque após o advogado denunciar em seu blog algumas das irregularidades do processo, provocando onda de apoio internacional à sua cliente. No sábado, o advogado foi interrogado na prisão de Evin. Depois disso, parentes e amigos não ouviram mais nenhuma notícia sobre onde ele está. "O paradeiro de Mostafaei é desconhecido desde que foi liberado do primeiro interrogatório no sábado", afirma a Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã. Segundo o grupo, autoridades iranianas prenderam a mulher do advogado, Fereshteh Halimi, e o irmão dela, Farhad, no sábado numa provável tentativa de pressionar Mostafaei a se entregar.

Mostafaei escreveu em seu blog pouco depois do primeiro interrogatório na prisão de Evin que foi questionado sobre a defesa de criminosos jovens e alertou que poderia ser preso a qualquer momento, de acordo com a Anistia. Mostafaei e outros advogados lançaram em 2008 uma campanha contra a execução de jovens condenados, pedindo para a abolição da pena de morte.

Prisões do regime. O porta-voz da Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã, Hadi Gaemi, disse que "ao trabalhar para evitar o apedrejamento de sua cliente, Mostafaei não quebrou nenhuma lei". Ele disse ainda que a mulher e o cunhado do advogado não têm envolvimento com as ações em defesa dos direitos humanos e são reféns do regime iraniano.

Segundo o jornal espanhol El País, a presidente do Comitê Internacional contra a Execução e o Apedrejamento, Mina Ahadi, disse que os parentes de Mostafaei estão detidos na prisão de Evin e serão libertados em troca do advogado desaparecido.

A Anistia Internacional diz ainda que o filho de Sakineh, Sajjad Qaderzadeh, de 22 anos, foi pressionado pelo governo a não dar mais entrevistas. Seu celular permanece desligado e o jovem compareceu ao serviços de inteligência pelo menos duas vezes na semana passada.

Sakineh foi interrogada e pressionada a revelar o nome dos envolvidos na campanha por sua libertação. Autoridades iranianas queriam saber quem eram as pessoas que estavam em contato com a família dela e como a foto dela chegou até a imprensa.

A imagem hoje é usada como símbolo da luta por direitos humanos no país. O abaixo-assinado virtual pela libertação da iraniana tem mais de 140 mil assinaturas, entre elas a do ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso e do cantor Chico Buarque. Na quarta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que interceder junto ao governo de Teerã pela libertação de Sakineh seria uma "avacalhação". /AP e THE GUARDIAN

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