AFP PHOTO / POLICE NATIONALE
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Advogados de Abdeslam abandonam sua defesa em razão de seu silêncio

Sven Mary e Frank Berton afirmaram que haviam aceitado defender o suspeito de cometer os atentados de Paris se ele aceitasse falar, mas o acusado tem demonstrado uma mudança de comportamento e deixou de cooperar com as autoridades

O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2016 | 12h11

PARIS - Os advogados de Salah Abdeslam, o único suspeito vivo dos atentados de Paris, realizados no dia 13 de novembro de 2015, abandonaram sua defesa em razão do silêncio do acusado, afirmaram nesta quarta-feira, 12, diversos veículos de imprensa franceses.

O belga Sven Mary e o francês Frank Berton afirmaram ao semanário Le Nouvel Observateur que Abdeslam "não colabora mais" e se mostraram convencidos de que ele manterá sua decisão de permanecer em silêncio.

"Não podemos continuar defendendo a palavra de um homem que está em silêncio. É uma decisão que amadurecemos (...). No momento em que se rejeita a estratégia de defesa que estamos propondo é necessário deixá-lo", afirmou Mary, advogado que está cuidando da causa desde a prisão de Abdeslam em Bruxelas, em março, quatro meses após os atentados que deixaram 130 mortos na capital francesa.

Os dois advogados notificaram Abdeslam sobre a decisão. Ele entendeu que "os caminhos deviam se separar" e escreveu ao juiz de instrução anunciando que não quer outros advogados.

Berton e Mary disseram que haviam aceitado a defesa do suspeito desde que ele aceitasse falar, mas nas últimas semanas houve uma mudança de comportamento de Abdeslam, e ele parou de cooperar, optando por ficar em silêncio.

Os dois advogados consideraram que as duras condições carcerárias às quais Abdeslam está submetido, isolado em uma cela com câmera de segurança 24h por dia, estão ajudando na sua mudança de atitude.

"No começo ele confiava em mim. Mas há sete meses assisto ao espetáculo de um rapaz de 27 anos que se afunda psicologicamente (...). É o sistema carcerário organizado sobre ele que está fazendo isso", afirmou Berton.

Mary foi mais longe e disse que, desde sua prisão, os discursos das autoridades francesas, incluindo a Promotoria, o fez pensar que seu destino estava selado, o que o levou a não querer cooperar com a Justiça.

Berton afirmou que "Abdeslam não foi responsável pelos atentados de Paris", mas que "o poder político resolveu responder ao populismo tratando-o como se fosse" e tratando o suspeito "como um rato em uma caixa".

"A prisão está transformando Salah Abdeslam em um animal selvagem. Sua janela está obstruída por um plástico, não entra ar. Ele vê sua família por trás de um vidro, não tem contato físico com ninguém. É degradante. Em 25 anos de carreira nunca vi isso", disse o advogado francês.

Ele acrescentou que Abdeslam foi transformado em um símbolo da luta antiterrorista, que não ajuda a avançar na busca pela verdade. Berton afirmou que "a lei autorizando a vigilância por câmera, incluindo a de infravermelho, não era necessária" e que se ele quiser cometer suicídio, “o fará".

Esse tratamento, qualificado por Mary como "tortura psicológica", está levando o preso, segundo os advogados, a se radicalizar em seu pensamento e a "se fechar em seu silêncio" e na "proteção de Deus". / EFE

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