Gordon Welters/The New York Times
Gordon Welters/The New York Times

Aeroporto histórico de Berlim vira centro de refugiados

Tempelhof está prestes a se tornar o maior centro de acolhimento do país, com capacidade para abrir até 7 mil refugiados; funcionários trabalham no improviso para atender necessidades

Alison Smale / The New York Times, O Estado de S. Paulo

02 de março de 2016 | 12h46

BERLIM - Os prussianos já desfilaram onde agora fica o Tempelhof. Então, na década de 1930, o arquiteto Ernst Sagebiel pegou o campo de aviação modesto e concebeu o lugar como uma entrada gigantesca para a nova Alemanha de Hitler.

Mais tarde, sua criação, algo que o arquiteto inglês Norman Foster chamava de "a mãe de todos os aeroportos", foi usada pelos americanos como base da ponte aérea que salvou Berlim Ocidental de um bloqueio soviético.

O tamanho e a extensão de Tempelhof, bem como sua localização no centro de Berlim, são tão impressionantes que tudo, até mesmo a sinalização do aeroporto e as esteiras de bagagem aposentadas, permanece sob proteção legal como um monumento.

Na verdade, durante toda sua vida, o aeroporto Tempelhof escreveu capítulos da história de Berlim. Então, talvez fosse inevitável que terminasse assumindo um papel principal na cidade atual.

Hoje, ele está prestes a se tornar o maior centro de refugiados da Alemanha. Para o Tempelhof, isso significa outra transformação.

A nova missão do aeroporto, que poderia abrigar até sete mil refugiados quando a reforma estiver pronta, colocou seus funcionários em papéis improvisados. Eles precisam decidir como abrigar, alimentar, aquecer, entreter e ajudar os recém-chegados da Síria, Afeganistão, Iraque e de outros lugares.

"Não existe um exemplo anterior de como fazer isso", afirmou Michael Elias, que chefia a empresa Tamaja, responsável pela administração das instalações para refugiados, organizando todos os aspectos, de segurança à limpeza, passando pela entrega de café da manhã, almoço e jantar.

"Os erros acontecem no começo", acrescentou Elias, de 46 anos, que veio do Líbano para a Alemanha ainda criança.

Sua sala fica na frente de um dos quatro espantosos hangares de 16 metros de altura onde até 800 refugiados estão atualmente acomodados em espaços de 25 metros quadrados formados por divisões temporárias. Seis beliches são apertados nesses locais, não há lugar para uma cadeira.

"Não é um espaço projetado para morar. É um hangar para aeronaves", disse Constanze Doell, porta-voz do Tempelhof Projekt, a agência municipal responsável pela reforma.

Na verdade, durante o período nazista, prisioneiros eram forçados a construir aviões nesses hangares.

Em 1948 e 1949, aviões americanos C-47 trouxeram milhões de toneladas de alimentos, carvão e outros suprimentos para a ponte aérea de Berlim, uma operação que, em seu auge, via aviões pousando a cada 90 segundos.

Muitos dos aviões espalhavam pequenos paraquedas com uvas-passas e chocolates. O "bombardeiro de passas", como ficou conhecido, ainda é lembrado com carinho em uma cidade que amou e odiou os americanos.

Durante a Guerra Fria, as força armadas dos Estados Unidos operavam aqui, em conjunto com voos civis. Depois que o Muro de Berlim caiu em 1989, os militares -americanos foram paulatinamente sendo retirados.

Enquanto Berlim unia suas metades ocidentais e orientais, vários usos foram discutidos para o Tempelhof. Contudo, seguindo um estilo berlinense clássico, nada foi decidido. No último referendo, em 2014, os berlinenses rejeitaram o plano de construir 4.700 casas, mantendo 85 por cento de sua enorme área verde.

Os urbanistas que podem ter amaldiçoado aquela oportunidade perdida para construir habitações necessárias estão agora pelo menos em parte aliviados; onde casas permanentes poderiam ter sido construídas, eles agora podem erguer casas pré-fabricadas para refugiados não abrigados nos hangares.

Holger Lippmann, de 52 anos, que chefia o Tempelhof Projekt muito certamente sentiu os efeitos do destino mutante do aeroporto. Ele assumiu o posto em meados de 2015, tendo antes sido o encarregado, durante 13 anos, de vender terrenos que a prefeitura considerava não precisar.

Agora ele vai ficar pelo menos dois anos e está entre os interessados em preservar cada centímetro de terra municipal para abrigar não apenas refugiados, mas também o número crescente de famílias que ficam em Berlim, ou se mudam para cá, lotando abrigos e escolas.

Para Lippmann e Elias, sua parte na saga do Tempelhof chegou de forma repentina. Na noite de 23 para 24 de outubro, receberam a ordem de preparar um hangar para refugiados.

"Naquela época, perto de 16 mil refugiados chegavam à fronteira da Baviera toda noite. Eles eram colocados em ônibus, depois os motoristas nos ligavam da 'autobahn', dizendo que chegariam a Berlim em três horas. Nesse período, era preciso organizar a brigada de incêndio, a polícia, até mesmo o Exército, e os voluntários", contou Lippmann.

Nem ele nem Elias podem fornecer os custos até hoje, nem os custos futuros, do programa. "Muito", disse Elias ao ser indagado. Lippmann contou que apenas para aquecer os hangares habitados são gastos US$ 26 mil por dia.

Uma visita recente em um dia ameno e de muito vento deu uma ideia dos refugiados, muitos usando celulares, outros deitados apáticos nas camas apertadas, com as crianças sendo distraídas por voluntários de um grupo circense e pela organização beneficente Save the Children.

Dezenas de novas unidades, contendo privada, pia e chuveiro para uso individual, esperavam ser conectadas. Elas foram compradas depois que refugiados, principalmente mulheres, se recusaram a usar chuveiros comunitários.

Quase todo dia traz um novo desafio. Depois que centenas de mulheres foram agredidas na noite do Réveillon em Colônia por jovens que seriam imigrantes, as mulheres que trabalham em mais de cem escritórios daqui ficaram temerosas. "Depois de Colônia, nós vemos uma sensibilidade especial e temor", disse Lippmann.

Empregados que antes se envolviam em eventos no aeroporto para arrecadar dinheiro - eventos de gala para a TV ou desfiles de moda, por exemplo - agora estão ocupados desfazendo esses contratos, e avaliando as necessidades dos refugiados.

Segundo Elias, idealmente, os refugiados deveriam passar apenas algumas semanas aqui antes de serem avaliados pelo sistema. Ele compara a Alemanha a uma sociedade que costumava cozinhar somente com sal e pimenta. "Agora, temos uma grande mistura", diz. O influxo "é positivo - a sociedade está avaliando quais características ela valoriza".

 

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