Afeganistão, o céu dos cambistas iranianos

Sanções levam cidadãos do Irã a encher caminhões de rials e trocá-los por dólares em território afegão, onde a fiscalização monetária quase não existe

Matthew Rosenberg e Annie Lowrey, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2012 | 03h05

CABUL - Agora que as sanções americanas e europeias estão provocando uma crise monetária no Irã, autoridades dizem que um número crescente de iranianos está enchendo caminhões com rials desvalorizados e enviando-os ao mercado cambial descontrolado no vizinho Afeganistão, ocupado pelos americanos, para trocá-los por dólares.

O rial perdeu mais da metade do seu valor ante o dólar e as transferências bancárias e trocas cambiais transnacionais tornaram-se difíceis, já que as sanções cortaram a vital receita de petróleo do Irã e isolaram o país dos mercados financeiros internacionais. Empresários e cidadãos iranianos estão desesperados para evitar mais prejuízos convertendo seu dinheiro e tirando-o do país para um porto seguro. Ao mesmo tempo, o governo está tentando encontrar maneiras alternativas de trazer moedas fortes.

Aí entra o Afeganistão, onde o dólar funciona como uma segunda moeda nacional após anos de gastos ocidentais e onde a fiscalização financeira é tão frouxa que bilhões de dólares em dinheiro saem do país a cada ano. Embora autoridades afegãs e ocidentais digam que não podem oferecer um número preciso sobre o comércio com o Irã, elas veem isso como um potencial desafio às sanções. Um desafio que os EUA, como principal benfeitor do Afeganistão, ajudaram a criar. Os iranianos estão "basicamente usando nosso próprio dinheiro e esquivando-se do que estamos tentando lhes impor", disse uma autoridade americana.

Trata-se de uma repetição de um problema persistente no Afeganistão, onde autoridades ocidentais já estão batalhando para aplacar a tempestade de corrupção que tem solapado o esforço de guerra. Nos anos desde a invasão, o país transformou-se num sonho para os contrabandistas, com uma economia de ópio pujante e a corrupção generalizada no governo, o que amplamente se acredita serem fatores na canalização de dinheiro de ajuda ocidental para o Taleban.

Sozinha, a fuga de dinheiro iraniano para o Afeganistão provavelmente não será suficiente para afetar as sanções, a pedra de toque dos esforços ocidentais para coagir o Irã a abandonar seu programa nuclear. Mas está claro que autoridades americanas estão preocupadas.

Um indício disso é que o presidente Barack Obama reforçou discretamente as sanções, no mês passado, ao conferir ao Departamento do Tesouro americano a capacidade de punir qualquer pessoa que compre dólares ou metais preciosos, como ouro, em nome do governo iraniano. "Estamos tomando medidas para dificultar para o governo do Irã a satisfação de sua demanda aumentada por dólares - e deixar claro a todos que fornecem dólares ao governo que eles enfrentarão sanções", disse David Cohen, o subsecretário do Departamento do Tesouro para terrorismo e inteligência financeira.

Os cambistas afegãos disseram ter sido alertados este mês por autoridades americanas para não realizar negócios com o Banco Ariano, o banco afegão pertencente a dois bancos iranianos. O Departamento do Tesouro manteve sanções contra instituições afegãs e iranianas nos últimos anos. Cambistas disseram que foram informados recentemente de que o banco afegão estava sendo usado pelo governo iraniano para levar dinheiro para dentro e para fora do Afeganistão.

Autoridades ocidentais e afegãs, além dos cambistas nos mercados monetários afegãos, disseram que alguns iranianos começaram a tentar comprar dólares e euros com seus rials depois que apertaram as sanções americanas e europeias no ano passado.

As compras são parte do esforço de iranianos ricos e de classe média para proteger suas poupanças e lucros comerciais transferindo-os para paraísos fiscais. Com as transferências legítimas para fora do Irã virtualmente impossibilitadas pelas sanções, os iranianos estão convertendo seus rials no Afeganistão, e depois transferindo o dinheiro para bancos no Golfo Pérsico e outros lugares. "A classe média está em pânico sobre o que fazer", disse Djavad Salehi-Isfahani, um economista da Virginia Tech e especialista na economia iraniana.

Reservas. O mais perturbador, aos olhos de autoridades ocidentais, é que o governo iraniano está procurando aumentar suas reservas de dólares, euros e metais preciosos para estabilizar suas taxas de câmbio e assegurar o pagamento de importações. O Irã tinha cerca de US$ 110 bilhões de reservas em moedas estrangeiras e metais preciosos em 2011 e acredita-se que elas estejam encolhendo. Os cambistas afegãos mostraram-se mais do que dispostos a negociar dólares por rials que são usáveis como moeda em muitas partes do Afeganistão ocidental, a taxas vantajosas.

Hajji Najeeb Ullah Akhtary, presidente da União de Intercâmbio Monetário do Afeganistão, uma associação de empresas tradicionais de transferência de dinheiro e câmbio conhecidas como hawalas, disse que ele e os membros da união haviam notado um forte aumento de iranianos levando dinheiro para o Afeganistão no ano passado. Isso ocorre por cima das transferências rotineiras de rials por afegãos que vivem e trabalham no Irã, que constituem mais de um milhão de refugiados empobrecidos, e o suprimento regular de rials que circula no Afeganistão. O dinheiro "vem em caminhões", disse ele, e as transferências são arranjadas por intermediários afegãos que ganham uma comissão de 5 a 7%.

Os iranianos estão convertendo rials em dólares em Cabul, na cidade fronteiriça ocidental de Herat e nas cidades meridionais de Kandahar e Ghazni, disse Akhtary. A maioria das transações era realizada em hawalas, que permitem transferência de grandes somas de dinheiro com pequenas taxas para parentes ou sócios comerciais em locais distantes em minutos. Os cambistas de vários lugares cobrem uns aos outros para fazer o sistema funcionar e fazem os acertos após o fato.

Os mercados são com frequência lugares decrépitos que dão pouco indício das vastas somas que estão sendo transferidas. A hawala de Cabul, por exemplo, é, pouco mais do que duas passagens esquálidas ocultas nas margens do Rio Cabul, um filete de água fétida sinuoso entre margens cobertas de lixo. Mas ela faz negócios graúdos. Do lado de fora de suas lojas, homens ficam sentados na calçada atrás de mesas instáveis com pilhas altas de moeda afegã, rupias paquistanesas, dólares americanos e rials iranianos, entre outras.

Um negociador de hawala, Hajji Ahmed Shah Hakimi, disse que duas rotas eram usadas principalmente para trazer dinheiro do Irã: uma diretamente cruzando a fronteira com o Irã e outra pelo Paquistão. Tanto ele como Akhtary insistiram que não estavam envolvidos em contrabandear dinheiro para iranianos ou outros, mas outros cambistas da hawala estavam.

Hakimi disse que as sanções ao Irã eram vistas no Afeganistão como uma questão americana e por isso os afegãos não viam problema em contrabandear dinheiro para iranianos. Algumas autoridades afegãs concordaram com essa visão, dizendo que a fuga de dinheiro iraniano não era uma preocupação importante embora o problema mais amplo do contrabando de dinheiro a granel, sim.

O fluxo de dinheiro para dentro e para fora do Afeganistão fica quase sem monitoramento e controle, uma operação de lavagem de dinheiro "do tamanho do país", disse um auditor forense europeu que já monitorou crimes financeiros no Afeganistão.

Em 2011, estimados US$ 4,6 bilhões, soma equivalente a aproximadamente um terço do PIB do Afeganistão, foram acomodados em malas ou caixas e levados para fora do país desde o aeroporto de Cabul em voos comerciais, a maior parte para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Apesar de as novas regras e do maior controle policial terem começado a reduzir a saída aérea de dinheiro de Cabul, é suposição comum que boa parte passou a ser transferida para fora do Afeganistão por terra, em caminhões ou em voos bissemanais para Dubai partindo de Kandahar, no sul do Afeganistão, segundo uma autoridade afegã que monitora transações financeiras suspeitas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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