Ebrahim Noroozi/AP
Ebrahim Noroozi/AP

Violência em dia de eleições no Afeganistão deixa cinco mortos

Presidenciais foram realizadas sob a ameaça do grupo Taleban, que lançou advertência para dissuadir afegãos de irem às urnas

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2019 | 07h59
Atualizado 28 de setembro de 2019 | 21h07

CABUL - Os afegãos votaram neste sábado, 28, para eleger seu presidente em eleições ameaçadas por fraudes, abstenções e atentados, que causaram 5 mortos e 37 feridos durante todo o dia. Os resultados preliminares da votação serão conhecidos em 19 de outubro e os resultados finais em 7 de novembro.

A votação acontece enquanto as discussões entre o Taleban e os Estados Unidos estão estagnadas, distanciando a perspectiva de um diálogo entre o governo e os insurgentes para alcançar a paz no Afeganistão. O Taleban lançou advertências numa tentativa de dissuadir os eleitores de irem às urnas. Na quinta-feira, afirmou que seus combatentes atacariam os "escritórios e centros de votação".

O temor e a frustração pela corrupção contínua que tem caracterizado os sucessivos governos são as principais preocupações dos 9,6 milhões de eleitores. O Afeganistão também se viu abalado por um pico de violência às vésperas da disputa, após o fracasso no diálogo entre o Taleban e os Estados Unidos para encerrar a guerra mais longa travada pelos americanos.

Um dos primeiros registros de violência veio do sul do país, antiga área do Taleban. Uma bomba feriu 15 pessoas em uma mesquita que abrigava um centro eleitoral, segundo um médico do principal hospital da cidade de Kandahar. Três dos feridos estavam em estado grave. Também houve registro de ataques esporádicos em outros pontos do país.

A votação foi encerrada às 17h (9h30 de Brasília), após uma prorrogação de duas horas decidida para que os eleitores nas filas pudessem votar. "Contabilizamos cinco mártires (mortos) nas forças de segurança e 37 feridos entre os civis", informou o ministro do Interior, Masud Andarabi.

"Houve menos ataques do inimigo em comparação com as eleições anteriores", acrescentou o ministro da Defesa, Asadullah Khlaid, evocando os 60 mortos durante as legislativas de 2018.

A campanha eleitoral começou no fim de julho marcada por um atentado que deixou 20 mortos. Desde então, mais de 100 pessoas morreram, vítimas de ataques reivindicados pelo Taleban.

Esta é a quarta eleição presidencial da história do país, desde a realizada em 2004. Dezoito candidatos aspiram a tornar-se chefe de Estado com um mandato de cinco anos, mas o atual presidente, Ashraf Ghani, e seu primeiro-ministro, Abdullah Abdullah, se destacam como favoritos.

Após votar, o presidente declarou que "essa eleição abrirá o caminho para avançarmos em direção à paz com verdadeira legitimidade".

Ghani está confiante de que uma reeleição o tornará um interlocutor indispensável para negociar com o Taleban, que até o momento se recusou a dialogar por considerá-lo um "fantoche" de Washington.

Ghani e Abdullah Abdullah já se enfrentaram em 2014, numa votação marcada por irregularidades tão graves que os Estados Unidos impuseram a criação do cargo de Abdullah, que terminou em segundo.

As autoridades afegãs asseguraram que tomaram as medidas necessárias para evitar fraudes, empregando toda uma bateria de meios técnicos, incluindo leitores biométricos. 

Sayed Noor Ahmad, de 31 anos, funcionário de uma escola na capital, está "preocupado com a segurança", mas pensa que "não há outra opção senão votar e eleger um líder".

Vários eleitores com quem a AFP falou denunciaram incidentes técnicos, devido a leitores biométricos defeituosos e censos eleitorais incompletos.

"Inscrevi-me para votar e cheguei cedo ao colégio eleitoral, mas infelizmente meu nome não estava na lista", disse à AFP Ziyarat Khan, agricultor da província de Nangahar (leste).

O principal enigma dessa eleição será a extensão da abstenção. Espera-se que muitos eleitores permaneçam em suas casas, tendo perdido a esperança de que suas elites melhorem suas condições de vida, além do medo de ataques ou fraudes.

O futuro chefe de Estado assumirá as rédeas de um país em guerra, no qual 55% da população vivia em 2017 com menos de US$ 2 por dia e no qual o conflito com os insurgentes matou mais de 1.300 civis no primeiro semestre de 2019, segundo a ONU./AFP e AP

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