Afeganistão será terreno duro para batalha

Qualquer que seja a operação militar que os Estados Unidos estejam planejando contra Osama bin Laden, o fundamentalista saudita escondido no Afeganistão, as conseqüências serão desagradáveis. Em 1997, Bill Clinton reuniu um grupo de paquistaneses e afegãos na cidade de Peshawar, no Paquistão, para tentar capturar Bin Laden. A operação foi abortada quando Bin Laden descobriu o que estavam armando e se mudou para Kandahar, onde o regime Taleban tem seus quartéis-generais. No ano seguinte, após os atentados às embaixadas americanas na África, Clinton mais uma vez tentou pegá-lo, lançando 70 mísseis de cruzeiro em seus campos de treinamento. Catorze muçulmanos estrangeiros e 20 afegãos foram mortos, mas o saudita conseguiu escapar. Os esforços da administração Bush possivelmente serão mais radicais. Uma das estratégias poderá ser formar uma força de invasão liderada por tropas americanas especiais. Foi assim que o pai de Bush teve sucesso na captura de Manuel Noriega, no Panamá, em 1989. Ainda assim, mesmo num ambiente urbano, com tropas dos Estados Unidos distribuídas pela Zona do Canal, a operação causou centenas de mortes de civis. Capturar um homem bem defendido nas montanhas do Afeganistão pode ser muito mais difícil. Uma estratégia poderia ser usar forças anti-Taleban como aliadas. Uma aliança de oposição, armada pelos russos, vem combatendo o grupo extremista que abriga Bin Laden há sete anos. Nesse tempo, o controle das planícies do norte, perto do Usbequistão, e da região entre Kabul e o corredor de Salang tem-se alternado. Mas nunca chegou a haver indícios de que as forças anti-Taleban poderiam avançar para o sul e capturar Pashtun, onde Bin Laden vive. Ontem, o líder anti-Taleban, Ahmed Massud, morreu dos ferimentos que recebera dias antes. Resta assim a opção de invasão do Afeganistão com as tropas terrestres. A história do país sugere que isso poderá ser desasatroso. Ironicamente a principal estrada da capital, Cabul, para Kandahar é ainda chamada de Rodovia Eisenhower. Esse presente da guerra fria, do herói militar americano que virou presidente já foi uma lisa faixa de asfalto cortando os desertos do sudoeste. Dez anos de passagem de comboios militares russos na década de 80 a transformaram numa estrada cheia de sulcos que fazem os veículos trepidarem, desviarem-se da rota e saltarem como barcos em tempestade. Desse dilema militar que é o Afeganistão nenhum aspirante a conquistador do país escapou. Pode-se fortalecer as cidades e se pôr tropas em bases na planície do país e circular por essas áreas. Mas nunca se poderá ocupar os vilarejos nas montanhas ou encontrar, entre as centenas de grupos tribais antagônicos, líderes locais que cumpram suas ordens por muito tempo. Os britânicos tentaram três vezes dominar o Afeganistão, os russos uma vez. Se as tropas americanas o invadirem, poderão ter o mesmo destino. Pode-se vencer batalhas no Afeganistão. O general britânico Roberts de Kandahar, do alto comando inglës na Guerra dos Bôeres, na África do Sul, no início do século 20, ganhou esse título após um rápido e bem-sucedido ataque no qual avançou em grande velocidade pelo deserto durante 23 dias para derrotar um líder afegão local. Mas a Grã-Bretanha nunca conseguiu conquistar corações e mentes, nem se afastar muito das estradas. Quase um século depois, as forças soviéticas tiveram o mesmo problema. Quando Leonid Brejnev enviou tropas para socorrer o regime pró-comunista patrocinado por Moscou, elas foram bem-sucedidas no início. Os russos defendiam a modernização do Afeganistão e receberam apoio de muita gente nos centros urbanos, particularmente em Cabul. Isso explica por que o aliado da União Soviética, Najibullah, sobreviveu por três anos após a derrota e saída dos russos. Mas, apesar de os russos conquistarem terreno após 1980 e controlarem cidades, aumentou consideravelmente o número de seus inimigos nas áreas rurais, onde a maioria dos afegãos vive. Bombardeios russos e duras operações militares (que são agora repetidos agora na Chechênia) levaram milhares de pessoas a fugir. Muitos entraram para a resistência armada, que se tornou uma guerra santa islâmica e luta contra o invasor. Os russos não conseguiam se prevenir contra emboscadas a comboios e ataques-supresa da guerrilha afegã. Quando Mikhail Gorbachev chegou ao poder, em 1985, ele avisou os aliados em Cabul para procurarem uma solução política, pois os russos iriam se retirar. Cerca de 15 mil russos já haviam morrido (no que se chamou ?o Vietnã soviético?). Washington pode ainda ter esperança de persuadir o Taleban a extraditar seu hóspede, sem optar pela ação militar. Bill Clintou chegou perto disso depois que falharam ataques com mísseis. Tudo que o Taleban pedia era reconhecimento diplomático e o fim do estigma de pária. Embora os americanos tenham aprovado o envio de suprimentos do Paquistão para o Taleban quando o movimento surgiu, eles depois recuaram por causa da cobertura da mídia ocidental sobre as estarrecedoras notícias sobre violação das liberdades civis pelo Taleban, que mantém um regime no qual as mulheres não têm praticamente direitos. Desapontado, o Taleban se enclausurou ainda mais em seu isolacionismo fundamentalista. Depois que Clinton convenceu as Nações Unidas a impor sanções ao país, o Taleban respondeu explodindo as ggantescas estátuas de Buda de Bamyan. Quando os russos saíram, eles esperavam que os Estados Unidos enxergassem os benefícios da modernização e encorajassem o setor menos extremista da guerrilha mujahedin a dividir o poder com o pró-russo Najibullah. Mas Washington estava dividida entre os que queriam dominar o Afeganistão para humilhar Moscou e os que viam vantagem em deixar o Taleban de lado. Ganhou a linha dura, o que abriu caminho para o triunfo do Taleban. Assim, refúgio de Bin Laden no Afeganistão foi um resultado da política americana, e não algo a despeito dela.

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