Afegãos acusam Otan por morte de 5 civis

Cinco pessoas foram mortas na noite de ontem em um cerco militar a uma casa nos arredores de Gardez, cidade a cerca de cem quilômetros de Cabul, capital do Afeganistão. Hoje, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) afirmou ter matado rebeldes em um ataque noturno na mesma região, enquanto familiares das vítimas asseguram que todas eram civis inocentes. Autoridades locais confirmaram hoje a abertura de uma investigação para apurar o caso.

AE-AP, Agencia Estado

12 de fevereiro de 2010 | 18h55

Segundo a versão da Otan, uma força conjunta da aliança e do Afeganistão matou diversos rebeldes em um ataque a um "galpão" onde posteriormente foram encontrados os corpos de dois homens e duas mulheres amarradas e amordaçadas. Já os familiares das vítimas acusam soldados dos Estados Unidos de terem matado civis inocentes no incidente ocorrido na noite de ontem nas proximidades de Gardez, capital da província afegã de Paktia.

O general Azizudin Wardak, comandante da polícia local, disse que as cinco vítimas - dois homens e três mulheres - foram mortas na noite de quinta-feira, quando participavam de uma festa. Um dos homens trabalhava para a polícia e o outro atuava no gabinete da promotoria, assegurou. "Quem os matou? Nós ainda não sabemos", disse o general antes de informar sobre a abertura do inquérito.

As mortes de civis em operações militares encabeçadas pela Otan no Afeganistão têm causado bastante atrito com as autoridades afegãs nos últimos anos, o que levou comandantes americanos a darem ordens estritas para que uso da força fosse limitado em situações nas quais houvesse civis em risco.

Por sua vez, o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, vinha pedindo à Otan que parasse com ataques noturnos a residências por considerar tais ações uma ofensa à cultura afegã, tornando a população arisca ao governo e a seus aliados.

O Ministério de Interior do Afeganistão enviou hoje uma equipe de investigadores a Paktia para apurar o incidente, num indicativo da preocupação nos altos escalões do governo com mais um caso no qual acredita-se que tenham sido mortos civis, e não rebeldes. A Otan prometeu "cooperar plenamente com a investigação conjunta", disse o general de brigada Eric Tremblay, porta-voz das forças estrangeiras.

Nota da Otan

Por meio de nota, a Otan informou ter realizado uma operação na noite de ontem em Gardez depois do recebimento de informações sobre atividade militante em um galpão no povoado de Khatabeh. Segundo a nota, "diversos insurgentes se envolveram num tiroteio e foram mortos".

O documento não especificava quantos supostos rebeldes teriam participado do confronto. A seguir, prossegue a Otan, "um grande grupo de homens, mulheres e crianças" deixou o local e foi detido pelas forças de segurança.

Um primeiro comunicado anunciava a "terrível descoberta" dos corpos de três mulheres amarradas e amordaçadas escondidos em uma sala adjacente. Horas depois, a Otan divulgou uma segunda nota na qual, sem explicar a discrepância, afirmava ter encontrado os corpos de duas mulheres amordaçadas e amarradas e os cadáveres de dois homens. Ainda segundo a Otan, oito homens foram detidos para interrogatório.

Enquanto a aliança assegura que os homens mortos eram rebeldes, familiares das vítimas acusam as forças americanas de serem as responsáveis pelas cinco mortes.

Um homem que identificou-se como Hamidullah disse à agência de notícias Associated Press que estava na casa junto com mais de 20 pessoas para celebrar o nascimento de um filho quando o imóvel foi cercado por "forças especiais americanas".

Quando um convidado foi ao quintal perguntar o motivo do cerco, os soldados abriram fogo, relatou Hamidullah em conversa por telefone com a AP. "Daoud estava indo lá fora perguntar o que se passava e atiraram nele", disse.

A seguir, os soldados mataram um segundo homem e obrigaram os demais a sair para o quintal e se ajoelharem com as mãos atrás da cabeça, prosseguiu Hamidullah antes de irromper em lágrimas e interromper o relato.

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