WAKIL KOHSAR / AFP
WAKIL KOHSAR / AFP

Afegãos encaram futuro sob controle do Taleban após saída americana

Grupo radical enfrenta agora o desafio de governar um país empobrecido e polarizado, atormentado pela escassez de alimentos e dinheiro, por ameaças terroristas e uma crise humanitária cada vez mais intensa

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2021 | 10h01
Atualizado 31 de agosto de 2021 | 11h50

Os afegãos acordaram na manhã desta terça-feira, 31, para a realidade de um Afeganistão firmemente controlado pelo Taleban, em meio a temores cada vez maiores de que o país esteja refém de um regime repressivo, enquanto luta contra uma crise econômica e humanitária cada vez maior.

Enquanto os últimos aviões americanos sumiam de vista sobre a capital, Cabul, na noite de segunda-feira, e a notícia de sua partida se tornava clara. Combatentes do Taleban dispararam suas armas para o alto, iluminando o céu noturno. A retirada americana marcou o fim de uma ocupação de 20 anos que custou mais de US$ 2 trilhões (cerca de R$ 10,37 trilhões), ceifou mais de 170 mil vidas e culminou com o retorno dos mesmos insurgentes que os Estados Unidos retiraram do poder.

Zabihullah Mujahid, o principal porta-voz do Taleban, cumprimentou os afegãos "pela vitória" enquanto percorria o aeroporto, nesta terça. "Esta vitória pertence a todos nós", disse ele.

Mas é provável que as celebrações do Taleban sejam de curta duração. O grupo enfrenta agora o desafio de governar um país empobrecido e polarizado, atormentado pela escassez de alimentos e dinheiro, por ameaças terroristas e uma crise humanitária cada vez mais intensa.

O fim do envolvimento militar dos EUA no Afeganistão levanta ainda um novo conjunto de questões para Joe Biden e a sua administração.

O que acontece com os americanos e afegãos deixados para trás?

Os Estados Unidos retiraram mais de 5.500 cidadãos norte-americanos desde 14 de agosto. 

Um pequeno número de cidadãos americanos optou por permanecer no Afeganistão, muitos deles para ficar com membros da família. Há também milhares de afegãos em situação de risco, tais como intérpretes que trabalharam com militares dos EUA, jornalistas e mulheres, que ficaram para trás.

Um oficial militar dos EUA disse que todos os americanos que quiseram partir e conseguiram chegar ao aeroporto foram retirados do Afeganistão. No entanto, vários americanos, supostamente menos de 300, permanecem no país, seja por opção ou porque não puderam chegar ao aeroporto.

Algumas pessoas recorrem às redes sociais para pedir ajuda para tirar pessoas próximas do país. "A minha família ficou na entrada do aeroporto de Cabul durante quatro dias, depois de terem sido deixados para trás, por favor ajudem-nos a partir", escreveu um homem que se identificou como ex-intérprete militar numa mensagem a um legislador britânico.

A administração Biden afirmou esperar que os Taleban continuem permitindo a saída segura dos americanos e outros cidadãos que queiram deixar o país.

Não está claro qual será o destino dessas pessoas, que temem retaliação.

No entanto, os insurgentes tem reafirmado, em declarações públicas, o compromisso de permitir que todos os cidadãos estrangeiros e afegãos com autorização de viagem para outro país saiam do Afeganistão, de acordo com uma declaração conjunta emitida pela Grã-Bretanha, Estados Unidos e outros países no domingo.

Mas há preocupações sobre como esses cidadãos poderão partir sem um aeroporto em funcionamento.

O que acontecerá com o aeroporto de Cabul depois da saída das tropas americanas?

Durante as últimas duas semanas, os militares americanos asseguraram o funcionamento do aeroporto internacional Hamid Karzai, em Cabul.

Agora, milhares de afegãos que se apegaram à esperança de escapar do país enfrentarão a realidade de que sua única saída de emergência está sob o controle do Taleban.

O Catar e a Turquia estão em diálogo com os Taleban sobre se irão ajudar a operar voos civis a partir do aeroporto. Os insurgentes anunciaram nesta terça-feira que o aeroporto reabriria dentro de dias, e que aqueles que tivessem visto seriam autorizados a deixar o país.

O ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Cavusoglu, afirmou no domingo que reformas precisam ser feitas no aeroporto de Cabul antes da volta dos voos civis.

A Turquia, que faz parte da missão da Otan, tem sido responsável pela segurança no aeroporto durante os últimos seis anos.

Manter o aeroporto aberto após a volta do Taleban é vital não só para que o Afeganistão se mantenha ligado ao mundo, mas também para manter os fornecimentos de ajuda e operações possam existir.

O que esperar da relação EUA-Taleban?

Os Estados Unidos disseram que decidirão no futuro com base nas ações do Taleban como serão as relações com o grupo.

Mas o governo Biden terá que decidir como pode evitar que uma crise humanitária e econômica estoure no país.

Um terço de todos os afegãos enfrenta aquilo a que as Nações Unidas classifica como níveis críticos de insegurança alimentar. A ONU diz que mais de 18 milhões de pessoas — mais da metade da população do Afeganistão — precisam de ajuda. Metade delas são crianças com menos de 5 anos, que já sofrem de desnutrição aguda em meio à segunda seca no país em quatro anos.

É nesse contexto que os taleban tentam formar um governo que muitos afegãos e países podem nem sequer reconhecer.

Serviços básicos como o fornecimento de eletricidade estão sob ameaça, uma vez que muitos funcionários do Estado não apareceram para trabalhar. Washington congelou as reservas governamentais afegãs, e o Fundo Monetário Internacional bloqueou o acesso do país às reservas de emergência.

As condições irão provavelmente piorar muito em breve, com as reservas alimentares provavelmente esgotando-se no final de setembro, disse Ramiz Alakbarov, coordenador humanitário das Nações Unidas para o Afeganistão.

Em Cabul, “podemos estar à beira de uma catástrofe humanitária urbana”, avalia Alakbarov. “Os preços estão aumentando. Não há salários. Haverá o momento em que milhões de pessoas chegarão ao desespero”.

Alguns países, incluindo o Reino Unido, disseram que nenhuma nação deve reconhecer bilateralmente o Taleban como o governo do Afeganistão.

Que tipo de ameaça o Estado Islâmico oferece?

O único ponto em comum entre os Estados Unidos e Taleban poderia o combate aos militantes do Estado Islâmico.

Há questões sobre como Washington e os Taleban podem coordenar e potencialmente até partilhar informações para combater o grupo radical.

O Estado Islâmico Khorasan (ISIS-K), braço do EI na região, apareceu pela primeira vez no leste do Afeganistão no final de 2014 e rapidamente estabeleceu uma reputação de extrema brutalidade.

Para Entender

Quem é o ISIS-K, braço do Estado Islâmico no Afeganistão

Ameaça para Taleban e EUA, o Estado Islâmico Khorasan foi criado há seis anos por descontentes do Taleban paquistanês, críticos à versão 'insuficientemente dura' do governo islâmico

O grupo reivindicou a responsabilidade pelo atentado a bomba nos arredores do aeroporto, em 26 de agosto, que matou 13 militares americanos e dezenas de civis afegãos.

Os Estados Unidos realizaram pelo menos dois ataques com drones contra o grupo desde então, e o presidente Joe Biden disse que a sua administração continuará a retaliar pelo ataque.

ISIS-K é inimigo do Taleban, mas funcionários dos serviços secretos americanos acreditam que o movimento utilizou a instabilidade que levou ao colapso do governo do Afeganistão apoiado pelo Ocidente para reforçar a sua posição e intensificar o recrutamento de membros.

É possível esperar moderação do Taleban?

Desde que retomaram o controle de Cabul, os Taleban têm procurado apresentar uma versão mais moderada. 

Saad Mohseni, proprietário da Tolo News, a maior emissora do Afeganistão, destaca, entre os enormes obstáculos que o Taleban enfrenta, a busca diária pelo apoio dos afegãos.

“As expectativas aumentaram dramaticamente após os últimos 20 anos de liberdade e libertação, e a dor ainda está por vir”, disse ele. “O Taleban envolverá o mundo com uma abordagem mais inclusiva? Ou eles vão voltar aos caminhos do passado?”

Muitos afegãos recordam o domínio do grupo nos anos 90, que privou as mulheres de direitos básicos como a educação, e encorajou castigos como flagelações, amputações e execuções em massa.

E os primeiros sinais não são encorajadores. Desde a tomada de Cabul, em 15 de agosto, os rebeldes reprimiram violentamente protestos e a atuação da imprensa.

E enquanto se comprometiam com o respeito aos direitos femininos, advertiram as mulheres de que poderia ser mais seguro para elas permanecerem em casa, até que os combatentes tenham sido treinados para não maltratá-las. / NYT e REUTERS

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