Afegãos que assinaram acordo já querem renegociá-lo

Mal tendo secado a tinta de um acordo mediado pela ONU estabelecendo um governo transitório, vários líderes-chave afegãos - todos com grandes forças de combate - já estão exigindo que o pacto seja renegociado. O enviado especial da ONU Lakhdar Brahimi chega amanhã a Cabul para tentar superar as diferenças, encontrar-se com membros do regime que assume em 22 de dezembro e desfazer preocupações da antiga guarda pré-Taleban, que está ansiosa para expandir seus poderes, agora que a milícia fundamentalista está acabada. As críticas mais duras ao governo de transição do Afeganistão partem de dentro da Aliança do Norte, apesar de a frouxa coalizão ter a maioria dos cargos no futuro gabinete de 30 membros. Uma questão-chave parece ser a destinação de três poderosos ministérios - da Defesa, Exterior e Interior. Todos foram para um único partido da coalizão de cinco agremiações - o Jamiat-i-Islami, o agrupamento do atual presidente de fato Burhanuddin Rabbani. Em troca desses postos, Rabbani concordou em abrir mão do poder para Hamid Karzai - o homem nomeado para liderar o regime de transição pelos próximos cruciais seis meses. O Afeganistão é uma terra de profundas divisões étnicas. Essas divisões se intensificaram porque todos os três ministérios foram para homens do Vale de Panjshir, bastião do assassinado comandante militar da Aliança do Norte, Ahmed Shah Masud. "Os três ministérios-chave foram dados não apenas para um único partido da aliança, mas para um único distrito de Panjshir. Não é justo", reclamou hoje Rashid Dostum, o senhor da guerra de etnia usbeque que governa a cidade nortista de Mazar-i-Sharif, numa entrevista por telefone via satélite à Associated Press. Seus combatentes não seriam hoje em grande número, mas eles são conhecidos por sua determinação. Dostum tem dito que não travará uma guerra contra o novo governo, mas insiste em que sejam realizadas novas negociações sobre a divisão do poder. Um dos principais líderes xiitas muçulmanos, Karim Khalili, que encabeça o partido Hezb-i-Wahadat, disse que não participará do novo governo, mas também prometeu não combatê-lo. Ele afirmou que a nova configuração não representa com justeza os xiitas, apesar de haver três ministérios reservados aos hazaras, um grupo étnico originário da região central afegã de Hazarajat. Os hazaras são majoritariamente xiitas. O senhor da guerra Ismail Khan, do oeste do Afeganistão, também não gostou do acordo. Seu porta-voz, Nasir Ahmed Allahwi, disse que o novo governo não reconhece a importância de Khan. "Ismail Khan controla cinco províncias no oeste do Afeganistão e onde ele está nesse governo? Ele não está", afirmou Allahwi por telefone. Diplomatas ocidentais, que não quiseram ser identificados, suspeitam que Khalili, Khan e Dostum estão coordenando uma oposição ao governo interino. Outro significativo dissidente é Abdur Rassool Sayyaf, atualmente vice-primeiro-ministro, mas amplamente marginalizado na administração interina. Seu delegado nas conversações na Alemanha que definiram o novo governo recusou-se a assinar o acordo. Sayyaf quer que todo o pacto seja renegociado no Afeganistão, e tem acusado as Nações Unidas de terem enganado a Aliança do Norte. Sayyaf afirma que a Aliança do Norte não esperava que um novo governo saísse das negociações na Alemanha. O fato de o acordo ter sido alcançado fora do Afeganistão é um insulto, disse. "A honra e dignidade do Afeganistão foram colocadas em questão porque este é um país livre. Qualquer decisão deveria ter sido tomada aqui, dentro do país", afirmou hoje Sayyaf na capital afegã, Cabul. Em sua primeira entrevista desde a queda de Cabul e a fuga do Taleban em 13 de novembro, Sayyaf também criticou a presença de forças internacionais de paz no Afeganistão. "Não precisamos delas", disse. "Podemos providenciar segurança". A comunidade internacional está considerando o envio de uma imensa ajuda humanitária para os senhores da guerra rivais, e pretende usar as prometidas verbas de reconstrução para fazer as facções aceitarem o acordo da Alemanha. Mas muitos em Cabul - onde ainda são frescas as memórias dos banhos de sangue que precederam a subida do Taleban ao poder - dizem que somente uma grande força da ONU impedirá novas lutas internas. "Se as Nações Unidas não vierem com soldados de paz, eles voltarão a brigar e mísseis vão cair em nossas cabeças", afirmou Ghulam Shah, um guarda na capital. "Eles vão brigar. Sabemos que eles falam sobre paz agora, mas se a situação ficar nas mãos deles haverá lutas de novo". "Todos eles querem o poder. Todos eles querem ser o rei", explicou.

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