Afegãos temem possível reação dos EUA

Amedrontados, os afegãos começaram neste sábado a abandonar o Afeganistão, enquanto o líder do movimento integrista islâmico Taleban exortava todos os muçulmanos do mundo a se prepararem para uma jihad (guerra santa) contra qualquer um que ajudar os Estados Unidos a lançarem seus ataques em Cabul. Centenas de moradores da capital, convencidos de que os EUA devem em breve iniciar retaliações por causa dos atentados em Nova York e Washington, estão arrumando as malas. Muitos querem cruzar a fronteira com o Paquistão, mas diante da perspectiva de ter de esperar mais de dez dias para obter passaportes e vistos alguns se resignavam em procurar refúgio nas zonas rurais para tentar escapar da fúria militar americana. Jornais do vizinho Paquistão informaram que o número de pessoas chegando do Afeganistão cresceu consideravelmente nos últimos dois dias, enchendo ainda mais os já lotados campos de refugiados ao longo da fronteira. Diplomatas, funcionários de organizações não-governamentais (ONGs) e das Nações Unidas já deixaram o Afeganistão e o trabalho humanitário ficou a cargo dos afegãos que haviam sido contratados para ajudar. O Taleban, que nos últimos dias colaborou na retirada do pessoal de ajuda humanitária, pediu ontem, por meio de um comunicado, aos estrangeiros que ainda estão em território afegão que deixassem o país. O Taleban, entretanto, exortou seu povo a ficar e lutar. "Preparem-se para a jihad. Todos os muçulmanos no mundo que seguem o Islã e suas próprias crenças, devem defender o Afeganistão... e devem estar preparados para sacrificar-se pelo Islã", disse o líder do Taleban, o mulá Mohammad Omar em declarações à Rádio Sharia, captada pela Reuters e BBC. Os EUA deixaram claro que acreditam que o milionário saudita Osama bin laden, que vive no Afeganistão, está ligado aos ataques suicidas em Nova York e Washington e o presidente americano, George W. Bush, recebeu a aprovação do Congresso para usar "toda a força necessária" contra os responsáveis e contra qualquer país que os estejam abrigando. Mas o Taleban, que governa 95% do Afeganistão, manteve-se desafiante ontem, prometendo não apenas revidar aos ataques americanos como também atacar qualquer país que ajudar os EUA - numa clara referência ao Paquistão, que ontem se comprometeu a apoiar os esforços internacionais na luta contra o terrorismo e permitir que os EUA usem seu espaço aéreo em uma ação militar. Os Emirados Árabes Unidos, que com o Paquistão e a Arábia Saudita são os únicos países que reconhecem o governo taleban, anunciaram ontem que pretendem rever suas relações com o movimento afegão depois dos ataques nos EUA. Os problemas no Afeganistão foram aumentados ontem pelo anúncio da morte do líder da resistência afegã, Ahmad Shah Massud, comandante da Aliança do Norte, a principal adversária militar do Taleban. Segundo um porta-voz da oposição afegã, Massud morreu ontem às 10 horas em um hospital na Província de Takhar, norte do Afeganistão, quase uma semana após o ataque suicida cometido por um marroquino e um tunisino que se fizeram passar por jornalistas. O funeral de Massud, conhecido como o "Leão de Panshir", deveria ser realizado ainda ontem, provavelmente em seu vale nativo de Panshir, no norte do Afeganistão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.