Afilhado 'Cassa' padrinho Videla

Igreja argentina acata pedido de filho de vítima da ditadura, batizado por militar em 77

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2010 | 00h00

Desde 1907 na Argentina é tradição que uma mãe que dê à luz seu sétimo filho homem tenha o direito de pedir que o presidente da república seja o padrinho da criança. Diz a lenda que o sétimo filho homem - tal como no Brasil - vira lobisomem. A esperança dos pais, há mais de 100 anos, era que um apadrinhamento presidencial suavizasse o problema. Ser afilhado do presidente incluía o benefício de bolsas de estudos para toda a vida escolar e uma medalha de ouro. Os anos passaram e a lenda do lobisomem perdeu apelo popular. Mas o costume do batizado presidencial, estabelecido por lei, permaneceu.

Em 1977, em plena ditadura militar, Josefa Castillo estava no quinto mês de gravidez quando seu marido, Roberto Castillo - que trabalhava, sem militância política, em uma granja - foi sequestrado pelos militares. Desesperada, Josefa tentou libertar seu marido. Sem conseguir, meses depois, quando deu à luz Gastón, seu sétimo filho homem, recorreu ao apadrinhamento presidencial com a expectativa de que isso pudesse salvar a vida do pai da criança.

Fracasso. Os ossos de Roberto - com sinais de tortura extrema - foram descobertos em 2009.

Seu filho Gastón, pediu à Igreja na semana passada que seu batizado fosse cancelado, já que o vínculo religioso com o ditador Rafael Videla "fere, mortifica e infama o ato sagrado do batismo". O primaz da Argentina, cardeal Jorge Bergoglio, aceitou o pedido e determinou que o ex-ditador, apontado como o autor intelectual do massacre de milhares de civis, não seja mais padrinho de Gastón.

A medida determinada pelo cardeal Bergoglio possui grande valor simbólico, pois trata-se de uma rejeição da cúpula da Igreja Católica a Videla, embora por vias não convencionais.

Durante a ditadura a Igreja esteve alinhada com os militares. Padres católicos presenciaram torturas realizadas nos diversos centros clandestinos de detenção e usaram a confissão de pecados para arrancar dos prisioneiros o nome de militantes políticos que haviam conseguido escapar.

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