África do Sul festeja Mandela em aniversário de 90 anos

A África do Sul celebrou nasexta-feira o aniversário de 90 anos de Nelson Mandela, umsímbolo da reconciliação nacional em um país hoje assolado pordúvidas e por um sentimento de nostalgia em relação àPresidência dele. Jornais publicaram suplementos especiais e preencheramvárias páginas com homenagens vindas de todos os cantos para umhomem considerado o pai da atual África do Sul. Estações derádio divulgaram tributos ao longo de todo o dia. "Ele nos deu a liberdade. Se não fosse por ele, nãoestaríamos onde estamos hoje. Por causa dele, eu hoje possocaminhar livremente pelas ruas. Posso frequentar qualquerescola que deseje e encontrar um emprego sozinha", afirmou àReuters, estudante Barbara Phofo, de 20 anos, em Joanesburgo. Em um sinal do quão profundamente Mandela é respeitado portodas as raças, o jornal Beeld, publicado em africâner (alíngua usada pelos brancos cujo governo ele devotou a vida paraderrubar), reservou 12 páginas de homenagens e histórias arespeito do ex-presidente. Depois de seis meses de celebrações internacionais, Mandelapassou o dia de seu aniversário com a família e os amigos naregião onde nasceu, Qunu, no Cabo Oriental. Ele pediu que os ricos da maior economia da África dividamsuas riquezas com as legiões de pobres que, passados 14 anos dofim do apartheid, continuam enfrentando grandes dificuldades. "Há muitas pessoas na África do Sul que são ricas e quepodem compartilhar suas riquezas com os que não foram tãoagraciados, com os que não conseguiram livrar-se da pobreza",afirmou Mandela, usando uma de suas tradicionais camisasestampadas. "A pobreza cravou as garras em nosso povo. Se você forpobre, você provavelmente terá uma vida curta", afirmou,sentado ao lado de sua terceira mulher, Graça, viúva de SamoraMachel, presidente de Moçambique. Os dois casaram-se noaniversário de 80 anos dele, dez anos atrás. Vários dos netos de Mandela cercaram a cadeira dele paradesejar-lhe feliz aniversário e beijá-lo. O ex-presidentesul-africano afirmou que queria ter tido mais tempo para ficarao lado de sua família durante sua luta contra o apartheid, queinclui 27 anos de encarceramento. "Mas eu não me arrependo denada", disse. ESPERANÇAS FRUSTRADAS Depois do período de euforia alimentado pela posse deMandela como presidente, em 1994, e pelos esforçosbem-sucedidos dele para manter o país unido, evitando umaguerra civil, muitos começaram a sentir que as promessassimbolizadas por aquele homem haviam sido esquecidas. O amor e o respeito por Mandela, de toda forma, apenasaumentaram na década que se seguiu ao afastamento dele dopoder, em 1999, depois de cumprir um único mandatopresidencial. Sincero e determinado, Mandela passou então a fazercampanhas para enfrentar vários problemas, da repressãopolítica à Aids. Muitas dos textos de homenagem lamentaram o final dogoverno dele e manifestaram a esperança de que o ex-dirigentecontinue a ser uma figura inspiradora por muitos anos mais. "Meu desejo é que você tenha ainda muitos anos de boa saúdee que continuemos a nos beneficiar de sua sabedoria e de seuexemplo", disse Ahmed Kathrada, membro do CNA que ficou presojunto com Mandela na penitenciária da ilha Robben. O sucessor de Mandela, Thabo Mbeki, viu-se duramentecriticado por não ter conseguido enfrentar os vários problemasdo país, entre os quais o abismo que separa os ricos e osbrancos na África do Sul, uma crise de falta energia que ameaçaprejudicar o crescimento econômico, uma das maiores taxas decriminalidade do mundo e os efeitos do colapso do vizinhoZimbábue. Desmond Tuto, outra figura central da luta contra oapartheid e, como Mandela, vencedor do Prêmio Nobel da Paz,afirmou: "Temos sido muito abençoados. Ele se transformou noestadista mais admirado do mundo, um ícone do perdão e dareconciliação, um colosso moral." E François Pienaar, capitão branco da seleção sul-africanade rúgbi que venceu o campeonato mundial em 1995, escreveu:"Obrigado pela inspiração que você representa para a nação". Em um gesto eloquente de reconciliação com a parcela brancada população sul-africana, Mandela entrou em campo ao términoda partida final daquele campeonato usando uma camiseta e umboné do time. (Reportagem adicional de Phakamisa Ndzamela)

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