África do Sul indicia mineiros por massacre

Cerca de 270 mineiros foram acusados nesta quinta-feira pelo assassinato de 34 colegas mortos pela polícia durante uma greve na África do Sul, informaram autoridades locais nesta quinta-feira. Para tanto, a promotoria sul-africana recorreu a uma lei dos tempos do apartheid criticada por possibilitar a responsabilização da vítima pela ocorrência de um crime.

AE, Agência Estado

30 de agosto de 2012 | 18h41

A decisão de indiciar os mineiros sobreviventes por um massacre cometido pela polícia sugere disposição do governo sul-africano de transferir a culpa pelas mortes dos policiais para os grevistas e acarreta o risco de aumentar ainda mais a indignação dos sul-africanos, já chocados com a violenta repressão à greve.

O líder político de oposição ao presidente Jacob Zuma, Julius Malema, qualificou como "insanidade" o indiciamento dos mineiros. "Os policiais que mataram aquelas pessoas não estão presos. Nenhum deles. Isso é loucura", declarou Malema, expulso do governista Congresso Nacional Africano em abril. "O mundo inteiro viu os policiais matarem aquelas pessoas."

Frank Lesenyego, porta-voz da promotoria nacional sul-africana, alegou à Associated Press que "a polícia atirou, mas ela foi atacada pelos manifestantes, que estavam armados. Por isso, os 270 (mineiros) são acusados de assassinato".

Além dos 34 mineiros mortos, 78 ficaram feridas e cerca de 270 foram presos durante a repressão da polícia à paralisação na mina de platina de Marikana, operada pela Lonmin, em 16 de agosto. Nenhum policial ficou ferido no episódio.

Mais de 150 dos 270 mineiros detidos apresentaram queixas formais de espancamento pela polícia, segundo dados divulgados esta semana pela corregedoria sul-africana.

Moses Dlamini, porta-voz da corregedoria, disse que os mineiros espancados relataram que seus agressores queriam forçá-los a denunciar quem estivera envolvido na morte de dois policiais dias antes do massacre dos grevistas.

Sobreviventes da repressão disseram que muitos dos mineiros mortos e feridos foram baleados quando fugiam das bombas de gás lacrimogêneo e dos canhões d''água da polícia.

Dlamini recusou-se a comentar notícias segundo as quais autópsias demonstraram que diversos mineiros foram mortos com tiros nas costas.

A comissária de polícia Riah Phiyega tem sido duramente criticada por dizer que seus comandados "não fizeram nada errada". Segundo ela, os policiais agiram "em legítima defesa" e empregaram munição real somente depois de tiros terem sido disparados contra eles.

O massacre dos mineiros em greve foi o mais greve episódio de violência do Estado ocorrido na África do Sul depois do fim do regime do apartheid, em 1994.

A lei usada pela promotoria para justificar a responsabilização dos mineiros pelo massacre cometido pela polícia vigorava antes da constituição pós-apartheid e foi combatida pelo Congresso Nacional Africano em seus tempos de resistência ao regime racista. Segundo Lesenyego, apesar de a lei não constar do atual código sul-africano, ela tem sido usada como jurisprudência. As informações são da Associated Press.

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