África do Sul nega visto ao dalai-lama

Governo decide não prejudicar relação com China, grande parceira comercial

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2009 | 00h00

O governo da África do Sul cedeu à pressão da China e negou visto de entrada no país ao dalai-lama, o líder espiritual dos tibetanos, que participaria na sexta-feira de uma conferência de ganhadores do Prêmio Nobel da Paz para discutir como o futebol pode ser utilizado para combater o racismo e a xenofobia. A nação africana será sede da Copa do Mundo de 2010. China e África do Sul têm laços econômicos cada vez mais sólidos e as autoridades sul-africanas não quiseram colocar em risco seu relacionamento com Pequim ao dar visto a uma celebridade que o governo chinês considera uma espécie de "inimigo público nº 1". Thabo Masebe, porta-voz presidencial, afirmou que o governo não quer que o país africano seja fonte de "publicidade negativa" para a China. A África do Sul é o maior parceiro comercial dos chineses na África, com participação de 20% no total de exportações e importações. Além disso, o estatal Banco Industrial e Comercial da China fez em 2007 o maior investimento estrangeiro no país africano, ao pagar US$ 5,6 bilhões por 20% do capital do Standard Bank, o maior da África do Sul. O porta-voz do dalai-lama, Thubten Samphel, disse que o governo tibetano no exílio estava "muito desapontado" com a rejeição do visto ao líder religioso - que em 1996, em visita ao país, foi recebido pelo então presidente Nelson Mandela. O arcebispo emérito sul-africano Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz de 1984, afirmou ontem que não participará do evento caso a decisão não seja revista e classificou o comportamento do governo como uma "traição" à história de luta contra o apartheid.Outro Prêmio Nobel da Paz, o ex-presidente sul-africano Frederik De Klerk, também criticou a o veto ao dalai-lama. Segundo ele, a África do Sul deve permitir a entrada em seu território de qualquer pessoa com interesses "legítimos e pacíficos" e não se deveria pautar por critérios políticos ao decidir quem deve ou não participar da conferência.A China tem usado seu crescente poder econômico para promover seus interesses e isolar seus adversários, entre os quais o mais célebre é o dalai-lama, ganhador do Nobel da Paz em 1989.

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