África do Sul ordena prisão de opositor

Julius Malema, ex-líder da juventude do CNA expulso do partido, é suspeito de corrupção e acusado de estimular greves de mineiros

JOHANNESBURGO, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2012 | 03h06

Autoridades da África do Sul emitiram ontem um mandado de prisão contra o líder político Julius Malema, que foi expulso do partido governista Conselho Nacional Africano (CNA) em abril por indisciplina. Desde então, ele se tornou um duro opositor do presidente Jacob Zuma e um dos principais articuladores das greves de mineiros que têm ocorrido no país.

Uma unidade de elite da polícia da África do Sul investigava Malema havia vários meses por corrupção em concessões de contratos do governo em sua província natal, Limpopo. Segundo sua advogada, Nicqui Galaktiou, ele se apresentará à Justiça na semana que vem - embora ainda sem data definida.

"Sim, eu me encontrei com meu cliente e nós estamos cuidando disso. Não tenho uma cópia da ordem de prisão e não conheço as acusações", disse a advogada. "Apenas recebi a confirmação de que há um mandado de prisão contra ele."

O jornal sul-africano City Press afirmou que Malema é suspeito também de fraude e de lavagem de dinheiro. Recentemente, o político enfureceu investidores por exigir a nacionalização das minas do país, o maior produtor mundial de platina, e irritou membros do governo por articular várias greves de mineiros.

Na noite da quinta-feira, um dia depois de os trabalhadores da mina de Lonmin retomarem os trabalhos após seis semanas - protesto cuja repressão deixou 45 mortos -, os mineiros da jazida AngloGold Ashanti Kopanang, na Província de Free State, também suspenderam suas atividades.

Ruptura. Malema era um dos mais próximos aliados do presidente Zuma. Ele entrou para a juventude do CNA aos 9 anos e tinha 10 quando o apartheid foi abolido. Em seus discursos, ele fala como se tivesse pegado em armas para lutar contra o regime de segregação racial.

Na África do Sul, ele é conhecido por ser uma fonte de comentários politicamente incorretos. Enquanto era aliado de Zuma, suas declarações serviram para sujar ainda mais a reputação do presidente.

Uma dessas intromissões indesejadas ocorreu em 2005, quando Zuma foi acusado de estuprar a filha de um colega de partido. No auge do escândalo, Malema afirmou que não houve estupro porque a jovem havia "se divertido". "Quando uma mulher não gosta (de sexo), ela vai para casa de madrugada. Mas, quando ela se diverte bastante, espera o sol nascer e pede o dinheiro do táxi", disse na ocasião.

O temperamento de Malema já lhe valeu comparações com o ditador do Zimbábue, Robert Mugabe. Aos 31 anos, ele mora numa mansão em Sandton, bairro nobre de Johannesburgo, e desfila pela cidade em carros importados.

Em março, Malema foi expulso do CNA após apelar contra uma decisão de suspendê-lo por cinco anos - uma comissão o considerou culpado por fomentar divisões internas no partido.

Em agosto de 2011, apoiadores de Malema entraram em confronto com a polícia de Johannesburgo durante um protesto contra a decisão da legenda de abrir uma investigação sobre sua conduta. Os manifestantes foram impedidos de invadir a sede do CNA pela tropa de choque, que foi atacada com pedras. Na época, Malema defendia a deposição do governo eleito de Botsuana. Outra reivindicação constante do ex-integrante do CNA é a desapropriação de terras dos fazendeiros brancos.

Em seus comícios, Malema costumava incentivar estudantes a cantarem uma canção que inclui o refrão "kill the Boer, kill the farmer" (mate o Boer, mate o fazendeiro), entoada pelos movimentos de resistência durante o apartheid. A música foi considerada inconstitucional por estimular o conflito entre brancos e negros. / REUTERS

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