África do Sul pode usar Exército para conter violência xenófoba

Onda de ataques obriga milhares de estrangeiros, a maioria do Zimbábue, a fugir; pelo menos 22 já morreram

Agências internacionais,

20 de maio de 2008 | 08h47

Ministros de segurança da África do Sul discutem a possibilidade de contar com o Exército para interromper a onda de ataques contra estrangeiros, que já deixou pelo menos 22 mortos. Segundo a BBC, o uso das tropas, que foi pedido por grupos de direitos humanos e pela oposição, não pode ser rejeitado, segundo afirmou um alto funcionário do partido.   Veja também   Xenofobia é explícita no país    Armadas com facões, tochas e bastões, multidões de sul-africanos espancaram, queimaram e mataram em três dias duas dezenas de trabalhadores imigrantes em favelas de Johannesburgo. A escalada dos ataque contra estrangeiros, que teve início na semana passada, é uma das piores ondas de violência no país desde o fim do apartheid. O saldo até a noite era de pelo menos 22 imigrantes mortos - 10 apenas ontem. Seis mil foram obrigados a refugiar-se em delegacias e igrejas.   As vítimas vêm principalmente do Zimbábue, de onde saíram para fugir da miséria e da violência. Dos cerca de 5 milhões de imigrantes na África do Sul, 3 milhões são zimbabuanos. Sul-africanos pobres acusam os imigrantes de roubar empregos que poderiam ser ocupados por trabalhadores locais, diante de uma taxa de desemprego de 30%. Os estrangeiros também são responsabilizados pela falta de moradia e por fomentar a violência nas periferias.   O presidente Thabo Mbeki condenou a onda de violência xenófoba "vergonhosa e criminosa". O secretário-geral do partido Congresso Nacional Africano (ANC, sigla em inglês), Gwede Mantashe, afirmou que se o Exército foi utilizado, os militares teriam o respaldo de policiais. O reforço policial já foi enviado para as áreas afetadas e Mbeki disse que policiais chegariam "à raiz da anarquia". Na segunda, a coalizão de grupos de direitos humanos chamou os ataques de "emergência nacional" e apelou para que o governo considerasse o uso de tropas."   Dezenas de mulheres estrangeiras foram estupradas; homens, carbonizados; barracos, queimados e lojas, destruídas. "Se voltarmos para a rua, eles nos matam", disse um zimbabuano à rede britânica BBC. "Isso é uma guerra. Eles gritaram para eu sair, disseram que eu não pertencia a esse lugar e queimaram minha casa toda", afirmou à agência Reuters Lucas Zimilia, moçambicano que foi ferido com um machete. Os ataques xenófobos começaram na favela de Alexandria, em Johannesburgo, mas ontem se espalharam para outros bairros e outras cidades, principalmente na fronteira com o Zimbábue.   Principal alvo dos agressores, muitos imigrantes zimbabuanos disseram que pretendem voltar para seu país, que enfrenta uma inflação de 165.000% ao ano (a maior do mundo) e um limbo político desde a eleição presidencial de março. Centenas de opositores já foram agredidos desde então. O segundo turno - entre o presidente Robert Mugabe e o oposicionista Morgan Tsvangirai - está marcado para 27 de junho.   Segundo o secretário-geral do partido governista, o ANC já dialoga com os opositores, pois muitos dos focos de violência estão em áreas de predominância do grupo. O partido nega ligação com os ataques. Segundo a BBC, o bispo Paul Veryn, que lidera a Igreja Metodista, afirmou que muitos estrangeiros estão abrigados no local e que os ataques do final de semana foram "claramente orquestrados". Ele disse ainda que os manifestantes pareciam saber exatamente onde as pessoas moravam. De acordo com a ONG Médicos Sem Fronteiras, cerca de seis mil pessoas deixaram suas casas temendo ataques na região de Johanesburgo.   O presidente Mbeki pediu para que os sul-africanos recebam bem os refugiados estrangeiros. "Cidadãos de outros países do continente africano e de outros lugares são humanos e merecem ser tratados com respeito e dignidade". Thabo Mbeki disse que vai organizar um painel de especialistas para investigar as causas da violência, enquanto o líder do partido governista, Jacob Zuma, condenou os ataques. "Não podemos permitir que a África do Sul fique conhecida por xenofobia", disse Zuma.  O Nobel da Paz Desmond Tutu apelou para o fim da violência: "eles não nossos irmãos e irmãs", afirmou o arcebispo.   (Com BBC, Reuters e Associated Press)

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