'África do Sul precisa de uma revolução de mentalidade', diz ex-colaborador de Mandela

Para artista, ex-presidente não lutou apenas pelos negros, mas por todas raças

Entrevista com

Julio Maria - O Estado de S.Paulo,

08 de dezembro de 2013 | 02h08

Raymond Chikapa Phiri não enxerga o arco-íris. Artista dos mais contundentes na luta contra o apartheid, respeitado pelo próprio Nelson Mandela pela audácia em colocar seus versos na mira dos fuzis do regime de Hendrik Verwoerd, Ray Phiri sente que algo não está certo na África do Sul: "Mandela não lutou por uma África apenas negra. Onde estão as outras raças?"

Ray, de 65 anos, falou ao Estado há três meses, quando Mandela estava internado em estado grave em um hospital de Pretória. Voz que enfrentou a censura e as ameaças da segregação com canções vencedoras de discos de ouro em seu país, ele diz que a África precisa de uma "revolução nas mentes."

Como fica a África do Sul depois de Nelson Mandela? Há o risco de o país entrar em um clima tenso entre as etnias?

Não posso dizer que o único líder que tenha unificado a África do Sul seja Nelson Mandela. Há outros que podemos apoiar e até temos de apoiar para não ficarmos vivendo o sonho de Mandela para sempre. Ele foi importante, mas temos de encontrar soluções para os problemas atuais. Temos de encontrar novos líderes também para não deixar que o legado de Mandela se apague.

Qual foi sua relação com Nelson Mandela?

Em 1990, depois que ele deixou a prisão, me chamou para ir a sua casa, em Soweto. "Olá Mandela, sou Ray Phiri", eu disse a ele. "Olá Ray, você não me desaponte, hein", falou, antes de me convidar para trabalhar como uma espécie de coordenador das canções que ele usaria em sua campanha para a presidência. "E como você está depois do acidente?", perguntou-me sobre uma colisão de carro que eu havia sofrido. Fiquei espantado. Mesmo preso, sabia tudo da minha vida.

O que é pior para a África? O racismo que divide as tribos ou o que divide as cores?

É tudo uma questão delicada. Os problemas caminham juntos. O regime do apartheid sabotou a sociedade quando criou townships como Soweto (bairros para confinar os não brancos a partir dos anos 50). O regime determinou espaços específicos e disse: "zulus, fiquem aqui", "cossas, fiquem aqui", "vendas, vocês aqui", "indianos, só vivam aqui". Fizeram isso e baniram os negros do centro das cidades. Depois da democracia implantada por Mandela, todos começaram a se mudar para bem longe dessas regiões. Os negros foram para o centro, os indianos se agruparam em outra região, os brancos em outra e a sociedade seguiu dividida.

E o que pode mudar isso?

Temos de unificar esses povos. Só quando formos unidos poderemos salvar a África do Sul. Em julho, durante concertos do Joy of Jazz Festival, os negros eram 100% da plateia.

Onde estavam os brancos ou os indianos?

Alguma coisa está errada por aqui. Ou é medo ou é paranoia. Mandela disse que não queria criar um país para os negros nem um país para os brancos, mas um país para todos. Os brancos sabem que eles têm culpa pelo apartheid, mas, mesmo assim, estamos aqui para celebrar com eles.

Não é utopia imaginar um país realmente unido depois de tantos traumas raciais?

Não. É possível unir essas pessoas sim, basta não pensar que elas vieram de outro país. Veja o Brasil, a seleção brasileira de futebol. Quantas raças existem ali? Agora, veja o nosso time de futebol, há apenas um ou outro branco.

Como seria se Mandela não tivesse existido?

Seria muito pior sem a coragem de Mandela. Aqui mesmo onde estamos, centro de Johannesburgo: os negros não podiam andar por aqui. Cidade do Cabo é outro exemplo. Se você for até lá, não vai ver negros durante a noite andando nas ruas. É como uma herança daqueles tempos.

Você está quase dizendo que é necessária uma nova revolução na África do Sul?

Sim, mas uma revolução de mentalidade, nós precisamos ir fundo e mudar nossas formas de pensar. Não é mais o indivíduo, é o coletivo. Só assim não deixaremos que destruam o sonho de Mandela.

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