Wikus de Wet/AFP
Wikus de Wet/AFP

Um dos países mais atingidos pela covid-19, África do Sul pode cavar até 1 milhão de sepulturas

Johanesburgo e Pretória têm aumento desproporcional no número de casos; só EUA, Rússia e Índia registram número maior de novas infecções por dia

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2020 | 03h00

Com cerca de 225 mil infecções e pouco mais de 3,6 mil mortes, a África do Sul estabeleceu-se como um dos maiores focos de infecção da pandemia de covid-19 no mundo, principalmente devido ao aumento desproporcional de casos em Johanesburgo e Pretória.

Os números, contidos pelas rigorosas medidas de confinamento impostas no final de março, dispararam nas últimas semanas. Só na quarta-feira, 8, foram registrados 8.800 novos casos e 100 mortes. 

Agora, a pandemia se espalha pelo país. Durante meses, o grande epicentro da covid-19 na África do Sul e, portanto, em todo o continente africano, ficou localizado na província do Cabo Oriental (onde fica Cidade do Cabo). Essa região acumulou dois em cada três casos do país.

Nas últimas semanas, no entanto, a maré mudou drasticamente e, enquanto a região costeira começava a ver uma lenta estabilização em seus números, as infecções em Gauteng dispararam rapidamente, especialmente em Johanesburgo.

Na noite de quarta-feira, o número do caso de Gauteng finalmente superou o do Cabo Ocidental. Horas antes da confirmação da marca, as autoridades da província de Gauteng anunciaram mais uma notícia sombria: antecipando os piores cenários e a possibilidade de enterros em massa, a província está considerando planos de disponibilizar até 1,5 milhão de túmulos.

A notícia causou tanta agitação que as autoridades locais tentaram esclarecer hoje que não esperam 1,5 milhão de mortes por covid-19 (a região tem cerca de 13 milhões de habitantes), mas que isso é apenas uma precaução para o cenário mais pessimista em relação à capacidade da província em oferecer esse tipo de serviço.

A perspectiva é particularmente sombria dado o progresso relativamente lento da pandemia no resto do continente (embora dados oficiais de muitos países não sejam tão confiáveis quanto os da África do Sul) e o fato de que o governo do presidente Cyril Ramaphosa não poupou esforços tentando pará-la, impondo um dos confinamentos mais duros do mundo desde o início, com sérios danos à economia, e aplicando testes em massa. 

A expansão da transmissão comunitária, no entanto, resistiu a essas medidas e a reabertura da economia, a partir de 1º de junho, foi o impulso final que fortaleceu a pandemia, principalmente devido ao aumento virulento de casos na província central de Gauteng, onde se encontram a capital política (Pretória) e o coração econômico da África do Sul (Johanesburgo).

'Questão sensível'

Em todos os cemitérios de Gauteng, as escavadeiras entraram em ação para cavar longas filas de sepulturas, prontas para possíveis enterros em massa.

O "ministro" da saúde da província, Bandile Masuku, considerou oportuno anunciar na quarta-feira que mais de um milhão de covas estavam disponíveis."Todos os nossos municípios estão aumentando suas capacidades e adquirindo terras de que precisam para enterros", afirmou. "Este é um assunto delicado, e eu gostaria de dizer que sempre há uma boa chance de evitar o pior do pico".

Tarde demais, o estrago estava feito. Seus números foram repetidos nos canais de notícias e redes sociais, alimentando um sentimento de ansiedade.

"A resposta do governo à covid-19 visa prevenir infecções e salvar vidas", tranquilizou o ministro encarregado do gerenciamento de crises, Nkosazana Dlamini-Zuma, no Twitter.

"NÃO estamos nos preparando para um milhão de mortes no país", insistiu.

"O número de mortos é de cerca de 550 mil em todo o mundo, não há cenário prevendo tantas mortes em Gauteng", ressaltou uma autoridade local da oposição, o Dr. Jack Bloom."Os comentários de Masuku criam pânico desnecessário e devem ser retirados", exigiu.

Os serviços de saúde de Gauteng fizeram questão de precisar a situação nesta quinta-feira. "A província não cavou mais de um milhão de sepulturas", corrigiram, "esse número se refere apenas à sua capacidade total".

Encruzilhada

Neste contexto, não faltam especulações sobre a necessidade de impor outro confinamento severo na África do Sul antes de atingir o pico da epidemia, previsto para agosto.

"A disponibilidade de leitos (hospitalares) será excedida em todas as províncias", admitiu o ministro da Saúde.

As piores previsões são para os sistemas público e privado e também incluem que a disponibilidade de leitos de UTI será excedida.

As autoridades, no entanto, afirmam que o sistema ainda não atingiu seu limite, razão pela qual ainda é descartada a volta ao confinamento.

Porém, ainda há semanas de distância do "pico" da pandemia, o esgotamento dos recursos do sistema de saúde e de seus profissionais já é uma realidade evidente em muitas áreas, especialmente em Gauteng, devido à recente avalanche de casos e na região do Cabo Oriental. /EFE e AFP

 

 

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