África do Sul teme choques em funeral de Terreblanche

Governo reforça segurança para enterro de líder supremacista branco que teria sido [br]morto por jovens negros

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Todas as atenções da África do Sul estão voltadas para Ventensdorp, vilarejo de 2 mil habitantes no norte do país, onde hoje será enterrado Eugene Terreblanche, líder supremacista branco assassinado no sábado. Autoridades enviaram ontem para a região um reforço policial, ambulâncias e bombeiros.

A Cosatu, maior central sindical sul-africana, convocou uma manifestação no local. "Não estou autorizada a dizer quantos policiais foram destacados, mas estamos preparados para tudo", disse Adele Myburgh, porta-voz da polícia.

Durante a semana, a polícia teve de usar arame farpado para separar negros e bôeres, como são conhecidos os agricultores brancos. Os dois grupos insultaram-se diante do acanhado tribunal de Justiça da cidade.

De um lado, os fazendeiros agitavam antigas bandeiras da África do Sul e cantavam o hino nacional no período do apartheid. Do outro, os negros responderam gritando "heróis", quando os dois acusados de matar Terreblanche a pauladas passaram pelo local.

A polícia não revelou o nome dos dois negros, um de 15 anos e outro de 27. Ambos trabalhavam para o líder extremista e negam a autoria do crime.

Crueldade. Terreblanche, fundador do Movimento de Resistência Africânder (AWB), era detestado na região. Segundo relatos de ex-empregados, ele obrigava os negros de sua fazenda a comer esterco e tinha o hábito de amarrá-los a caminhonetes em movimento.

Os bôeres enxergam um componente racial no assassinato de Terreblanche e culpam Julius Malema, líder da liga juvenil do Congresso Nacional Africano (CNA), partido governista. O ponto alto dos comícios de Malema é a canção Shoot the Boer (Atire no bôer). A Justiça o proibiu de cantar a música em público, mas foi ignorada.

Atacado por todos os lados - brancos ou negros -, o governo do presidente Jacob Zuma não tem feito muito esforço para se desvencilhar de Malema. Apesar dos pedidos de calma, Zuma tem evitado fazer criticas públicas ao jovem aliado.

PARA ENTENDER

A palavra "bôere" está associada ao agricultor branco que fala africâner, uma espécie de holandês arcaico. Durante o período do apartheid, o termo virou um epíteto racial para descrever todos os brancos da África do Sul. Hoje, os verdadeiros bôeres estão restritos ao interior do país, especialmente à zona rural, onde ainda existe tensão racial. Nas áreas urbanas, onde há mais brancos que falam inglês, o problema também não foi totalmente resolvido, mas se restringe a um breve insulto durante confusões no trânsito.

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