África e a covid-19, um mistério
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África e a covid-19, um mistério

Esperava-se que nas capitais e nas grandes cidades africanas ocorressem explosões da doença, guerras e mortes nas vastas planícies, mas não

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2020 | 03h00

E o que dizer da África? A das areias e das grandes florestas tropicais, dos lagos, a África das enormes aglomerações e isolamentos? No caso da covid-19, calamidades eram anunciadas. O vírus, quando chegasse a esse continente pobre, sem assistência médica e já fragilizado por outras epidemias, pela tuberculose, paludismo ou, mais recentemente, o terrível Ebola, que ainda não está fora de combate na maior parte do Congo, como se comportaria?

Esperava-se que nas capitais e nas grandes cidades africanas ocorressem explosões da doença, guerras e mortes nas vastas planícies, mortes silenciosas. Mas não.

A covid-19 está presente ali, mas nada comparável às imagens apocalípticas previstas. Em 18 de março a Organização Mundial da Saúde (OMS) prognosticou “um verdadeiro cataclisma”. Que não se verificou. Claro que o vírus chegou ao continente, mas sua periculosidade não se compara à que se observou na China ou na Europa. Os dados confirmam. A África representa 17% da população mundial e registrou menos de 1% de mortes por esse vírus.

Proliferam as pesquisas e explicações. Fala-se da pouca idade das populações: 60% dos africanos têm menos de 25 anos. A Itália, o país europeu mais atingido pelo vírus, tem uma população muito idosa. Mas o contra-argumento é de que o Japão está repleto de idosos e não sofreu uma hecatombe, longe disto. Mas se as notícias do Brasil não me confundem, a região mais atingida seria o Nordeste. E o Nordeste não tem um clima temperado.

Há uma outra tese, paradoxal, quando sabemos que a África carece de médicos, equipamentos hospitalares, em resumo, de todas as proteções que os europeus implementaram contra o vírus. E então surgiu a resposta, uma nova teoria: a África já tem uma experiência rica em matéria de doenças e epidemias, o que protegeria o continente de duas maneiras: aqueles outros flagelos injetaram nos africanos anticorpos que fariam frente ao novo invasor. 

Além disto, as populações, mesmo as distantes das grandes cidades, foram tão afetadas por outras doenças e epidemias que se habituaram, quase naturalmente, aos gestos e precauções, como distanciamento social, hábitos de higiene, máscaras, que os europeus têm dificuldade para respeitar.

Alguns também citam experiências singulares. No Senegal, tem sido utilizado o medicamento proposto pelo microbiologista Didier Raoult, que não é recomendado na França porque ainda não foi concluída a bateria de testes recomendados. Além da burocracia, o Senegal ignorou o fato (como outros países da África, Camarões, Costa do Marfim, África do Sul). 

O diretor do hospital Fann, de Dacar, resumiu desta maneira a utilização do remédio: “Em todos os pacientes que se beneficiaram do tratamento de Raoult, à base de hidroxicloroquina, não observamos nenhuma complicação, muito menos mortes”. Não conheço outros dados, em todo o caso, em Dacar, as pessoas estão convencidas que o protocolo teve bons resultados.

O jornal Libération fez uma pesquisa na ilha de Madagascar. Lá é distribuído um chá batizado CVO que seria eficaz, curando o paciente em sete dias. Não sabemos nada sobre esse CVO. É fabricado a partir de uma mistura vegetal, que inclui a Artemísia (chamada também de erva de São João) e outras plantas nativas da grande ilha. Neste caso, também não houve testes clínicos, mas há um grande entusiasmo por esse chá misturado com outras plantas usadas contra o paludismo. Nenhuma prova. Nos Camarões, o arcebispo de Douala disse que foi curado com uma combinação de Artemísia e outras plantas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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