

O Estado de S.Paulo
26 Outubro 2011 | 03h01
Análise: Josh Kron / NYTs
Enquanto os rebeldes da Líbia e as várias nações ocidentais saúdam o fim da longa e brutal ditadura da Líbia, muitos na África Subsaariana lamentam a morte de Muamar Kadafi, celebrado por sua generosidade e posição de confronto com o Ocidente. Para eles, sua morte violenta foi mais um capítulo triste da longa tradição de interferência das potências ocidentais nos assuntos da África.
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"Somos o 1% que não está comemorando", disse Salim Abdul, um dos gestores de uma importante mesquita em Kampala, capital da Uganda, dedicada ao ex-líder líbio, que forneceu os recursos para sua construção e prometeu pagar os funcionários pelos próximos 20 anos. "Ele amava Uganda", disse. "Agora, com a sua morte, tudo deverá acabar."
Na sexta-feira, cerca de 30 mil pessoas lotaram a mesquita para homenagear o líder assassinado. O Daily Mirror, importante jornal independente de Uganda, noticiou que o xeque Amir Mutyaba, ex-embaixador na Líbia, chorou quando disse a seus seguidores que Kadafi "morreu como um herói". E acrescentou que "Alá o abençoará", enquanto os "exploradores de petróleo estrangeiros serão punidos", referindo-se à convicção difundida na África de que o Ocidente interveio na Líbia principalmente por causa de sua riqueza em petróleo.
Na Nigéria, o país mais populoso da África, onde os muçulmanos são 50% da população, um senador disse à imprensa que Kadafi "foi um dos melhores líderes africanos". No Zimbábue, onde o presidente Robert Mugabe liderou a luta pela libertação contra um regime de minoria branca que acabou em 1980, um porta-voz presidencial disse que Kadafi será lembrado por seu apoio à luta pela independência, e criticou a interferência externa. Enquanto os inimigos de Kadafi se preparam para reconstruir o país, muitos africanos estão revoltados com o fato de a transferência do poder ter ocorrido, em grande parte, por causa do apoio militar fornecido pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) aos rebeldes.
Kadafi assumiu o poder em 1969, aos 27 anos, como um ideólogo influenciado pela figura do presidente do Egito Gamal Abdel Nasser (morto em 1970) e concentrou suas energias num renascimento pan-árabe. Mas na virada do século, sentindo-se menosprezado pelos colegas da região, voltou suas atenções para a África Subsaariana, onde era chamado de "rei dos reis da África". Ele usou seu dinheiro e as estatais para construir mesquitas, hotéis e empresas. Também se envolveu na política.
Quando começou o levante contra seu governo, a União Africana demorou meses para reconhecer o conselho rebelde. Até os africanos que não necessariamente apoiavam Kadafi ficaram revoltados com a maneira como ele foi morto. "Quer o amássemos quer não, devemos reconhecer que ele foi um dos maiores líderes africanos", disse o diretor de um festival anual popular de música em Mali. "(Kadafi) Foi um herói."
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