Afro-cubanos querem igualdade

Ao decretar o fim do racismo após tomar o poder, Fidel estimulou a discriminação velada

É JORNALISTA, HAROLD, MEYERSON, THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, HAROLD, MEYERSON, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2013 | 02h03

Há mais de meio século, Fidel decretou a eliminação do racismo, disse Leonardo Calvo Cárdenas. Mas "isso apenas tornou o problema mais profundo e mais complexo", completou.

Cárdenas faz parte do grupo dos afro-cubanos que constituem a metade da população de Cuba, mas estão sub-representados na liderança política do país, na mídia e na nascente classe empresarial. Cárdenas nem sempre esteve do lado de fora. "Fui diretor do Museu Lenin", disse-me em visita a Washington este mês. Seus dias no museu Lenin tiveram um fim abrupto em 1991, quando ele e seu amigo Manuel Cuesta Morúa, historiador do museu Casa de África, perderam o emprego depois de criticar a falta de democracia. Eles criaram uma organização socialista democrática que o regime rotineiramente hostiliza, mas, o que é atípico, não baniu. "Fomos o primeiro movimento político alternativo que publicamente se opôs ao embargo dos EUA", disse Cuesta Morúa, que acompanhou Cárdenas em sua visita. "Fica mais difícil para o governo cubano nos tratar da mesma maneira que trata outros dissidentes."

Em 2009, os dois se juntaram a outros ativistas e formaram o Comitê de Cidadãos pela Integração Racial. "A população afro-cubana está estagnada, na base da pirâmide social", disse Juan Antonio Madrazo Luna, coordenador nacional do comitê. "Cuba tradicionalmente tem uma mão de obra racialmente estratificada. E, apesar da retórica igualitária do governo, os descendentes africanos continuam excluídos dos trabalhos mais promissores", acrescentou Cárdenas.

Nenhum dos representantes do comitê acusa o governo Castro de amparar esse preconceito racial. O problema dos irmãos Castro e do Partido Comunista é que um movimento independente que luta pela igualdade de raças é uma negação enérgica da ideia de que, depois de mais de 50 anos no poder, o comunismo produziu uma igualdade. Outro problema para o partido é que um movimento independente não está sob seu controle. Para os afro-cubanos, o caminho para a igualdade está bloqueado pela repressão da sociedade civil pelo partido.

Nos últimos anos, as dificuldades econômicas de Cuba tornaram as divisões raciais mais visíveis. Mas "o governo não empreende uma campanha pública antirracismo", disse Madrazo, porque isso exigiria reconhecer a persistência do racismo. O grupo defende não só a igualdade racial. Tem uma divisão dedicada a gays e lésbicas e concede prêmios anuais para defensores de direitos humanos e do pluralismo.

É claro que num período mais repressivo os líderes do movimento estariam definhando na prisão e suas atividades seriam realizadas clandestinamente, se possível. "Quando realizamos fóruns públicos, com frequência somos presos", disse Cuesta Morúa. "Mas depois somos liberados. As táticas de repressão mudaram. Longos períodos de prisão não enfraqueceram o movimento pelos direitos humanos, o fortaleceram."

Os líderes do comitê não têm ilusões de que a queda do regime e a instituição de um governo democrático eliminarão a estratificação racial. "A existência de múltiplos partidos políticos garante a democratização do Estado. Mas não a democratização da sociedade", disse.

Entretanto, são enfáticos no sentido de que Cuba só se tornará mais igualitária quando for um país radicalmente mais democrático. Cuesta Moruá diz-se surpreso com o fato de que pessoas da esquerda americana que marcharam ao lado de Martin Luther King Jr, ou se identificaram com ele, hoje apoiam um regime cubano que jamais permitiria manifestações similares. "Existem cubanos esquecidos, cubanos invisíveis, muitos afro-cubanos, muitos não. Eles não vivem na utopia que alguns americanos ainda imaginam. Eles vivem em Cuba". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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