Agência européia não consegue contato com sonda em Marte

O Natal terminou com más notícias para a Agência Espacial Européia (ESA), sem nenhum sinal de vida da sonda de pesquisa Beagle 2, que deveria ter aterrissado em Marte na madrugada de hoje (25). Ao cair na superfície, amortecida por pára-quedas e um sistema de airbags, a sonda deveria emitir um sinal contínuo, indicando que tudo ocorreu como planejado. As duas tentativas iniciais de captar a mensagem, entretanto, não obtiveram sucesso, o que indica que a sonda pode não ter "sobrevivido".A primeira oportunidade foi com a sonda Mars Odyssey, da Nasa, às 3h15 (horário de Brasília), durante um sobrevôo da região do pouso. Mas não houve contato. A segunda foi com o radio-telescópio do Observatório Jodrell Bank, na Inglaterra, no fim da noite de hoje. Também sem sucesso. "Nenhum sinal foi detectado", anunciou a ESA, em um comunicado divulgado às 22h45. Novas tentativas serão realizadas nos próximos dias com a sonda espacial - às 16h15 de amanhã - e o telescópio britânico.Segundo controladores da missão, a sonda pode ter aterrissado com sua antena apontada para o ângulo errado da órbita da Mars Odyssey. Ou o frio marciano pode ter distorcido a freqüência do sinal. Ou, é claro, algo pode ter dado errado e a sonda, de 33 quilos, se perdeu. "É um pouco desapontador, mas não é o fim do mundo. Por favor não saiam daqui dizendo que perdemos a nave", disse o coordenador científico da Beagle 2, Colin Pillinger, durante uma coletiva de imprensa em Londres, antes da segunda tentativa de contato. "Temos certeza de que a Beagle 2 está na superfície de Marte - só precisamos escutar um sinal dela", disse o diretor de Ciência da ESA, David Southwood. "Receber sinais de Marte não é uma operação padrão."Apesar de tudo, a ESA pôde comemorar a inserção da Mars Express na órbita marciana - outra manobra arriscada -, também na madrugada de hoje. A sonda européia, que levou o Beagle 2 no espaço, entretanto, só poderá fazer contato com a sonda no solo a partir de 3 de janeiro porque sua órbita ainda é muito alta e elíptica. Independentemente de estabelecer contato com a Beagle 2, a nave está equipada para mapear a superfície marciana em três dimensões e vasculhar o solo até 4 quilômetros de profundidade com um poderoso radar, em busca de água subterrânea.Já será uma grande vitória para a primeira missão européia a Marte, de US$ 370 milhões. A Mars Express deve permanecer no espaço por pelo menos um ano marciano, ou 687 dias. "Pelo menos as checagens iniciais indicam que a nave está em ótimas condições", disse o diretor de vôo, Michael McKay.Pesquisa - O objetivo das duas sondas é procurar vestígios de vida no planeta - uma do espaço e a outra, do solo. A Beagle 2, nomeada em homenagem ao navio do pesquisador Charles Darwin, é um robô sem rodas, do tamanho de um guarda-chuva aberto, com instrumentos para fazer imagens e analisar amostras do solo, rochas e da atmosfera do planeta.Hoje, Marte é um ambiente árido e frio, com temperatura média de -55 ºC (apesar de, no verão, poder chegar a 27 ºC no lado iluminado). Cientistas acreditam, entretanto, que bilhões de anos atrás pode ter sido um planeta de vastos rios e oceanos. Imagens da superfície obtidas pelas duas sondas da Nasa já em órbita - Odyssey e Global Surveyor - mostram sinais de erosão e sedimentação típicos de corpos d´água.Dentro desse cenário, é possível que a vida tenha se desenvolvido também em Marte, assim como na Terra, e ainda esteja escondida em fendas ou debaixo da terra. Em algum momento, Marte perdeu sua atmosfera e água evaporou para o espaço, mas ainda há reservas congeladas nas calotas polares de gelo seco, ou dióxido de carbono.Caso a Beagle 2 tenha sido perdida, não será o primeiro fracasso de uma missão ao planeta vermelho. Pelo contrário. Das 34 missões americanas, soviéticas e russas já enviadas a Marte desde 1960, cerca de dois terços terminaram em fracasso. Se estiver "viva" e conseguir contato com a Mars Express, será o quarto pouso de sucesso no planeta. Duas sondas Viking, dos EUA, chegaram lá em 1976, além do jipe Sojourner, em 1997. A próxima prova de fogo será em janeiro, quando dois novos jipes de pesquisa da Nasa - Spirit e Opportunity - tentarão descer à superfície e explorar o ambiente marciano.

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