MANDEL NGAN / AFP
MANDEL NGAN / AFP

Sem reconhecer derrota, Trump autoriza transição

Responsável pela agência federal de administração de serviços gerais dos EUA autoriza transição de governo em comunicado que permite que a equipe de Biden tenha informações sobre a atual administração

Beatriz Bulla / Correspondente, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 20h29
Atualizado 25 de novembro de 2020 | 17h17

WASHINGTON - O presidente Donald Trump aceitou iniciar a transição de governo com a equipe de Joe Biden. Por 15 dias, a Casa Branca bloqueou os protocolos de transferência de poder, enquanto Trump travava uma batalha jurídica para contestar o resultado das urnas. Pelo Twitter, o presidente continuou sem admitir a derrota, mas disse ter concordado em iniciar a transição. 

Nesta segunda-feira, 23, Emily Murphy, diretora da Administração de Serviços Gerais (GSA, na sigla em inglês), agência encarregada de autorizar o início do processo de transição, autorizou que a equipe de Biden receba informações confidenciais – um reconhecimento de que o democrata foi eleito.

Segundo Trump, Murphy estava sob “ameaça e assédio”. “Quero agradecer a Emily Murphy da GSA por sua dedicação e lealdade a nosso país. Ela foi assediada, ameaçada e abusada – e não quero ver isso acontecer com ela, sua família ou os funcionários da GSA”, escreveu o presidente. “Nosso caso continua fortemente, e vamos manter a boa luta, e acredito que vamos vencer. De toda forma, no melhor interesse do país, recomendo que Emily e sua equipe façam o que precisa ser feito sobre os protocolos iniciais, e pedi que minha equipe faça o mesmo.”

Emily estava sob pressão de congressistas e da equipe de Biden, que argumentavam que a demora em iniciar a transição do presidente eleito representava uma ameaça à segurança nacional. Segundo o democrata, o atraso poderia causar problemas na distribuição de vacinas contra covid-19 nos EUA. 

A GSA inicia o processo de transferência de poder assim que há o anúncio de um presidente eleito. Na eleição deste ano, no entanto, o atraso durou mais de duas semanas. Emily, cuja indicação ao cargo foi feita por Trump, defendeu sua decisão na carta enviada a Biden e disse que nunca esteve sob pressão da Casa Branca. 

Segundo ela, era preciso esperar a contagem dos votos. “Eu não acho que uma agência federal deva se posicionar acima do processo eleitoral com base na Constituição”, escreveu Murphy. “Por favor, saiba que eu tomei decisões de forma independente, com base na lei e nos fatos disponíveis.” 

Com o sinal verde do governo, o time de Biden poderá fazer contato com as agências federais, ter acesso a informações do governo americano e dispor de um fundo de US$ 6,3 milhões para os gastos com a transição. 

Segundo a equipe do presidente eleito, a prioridade é ter acesso aos dados sobre contaminação por covid-19 no país e ao plano sobre a vacina contra o coronavírus, para que a troca de governo não ameace a sua distribuição. Os democratas também passarão a ter espaço de trabalho e poderão contar com o sistema federal para levantar a ficha e antecedentes de nomes escolhidos para integrar o governo.

Certificação de Michigan

Uma autoridade ligada à Casa Branca disse que Murphy tomou a decisão depois da mais nova derrota republicana para subverter a votação, com a certificação da vitória de Biden no Estado de Michigan. A Geórgia, onde a eleição foi apertada, já havia oficializado a vitória do democrata na sexta-feira, e a Pensilvânia deve fazer o mesmo nos próximos dias.

Biden recebeu 6 milhões de votos a mais do que Trump e obteve 306 votos no colégio eleitoral, acima dos 270 necessários para ser eleito presidente. As tentativas de recontagem pedidas por Trump em Wisconsin, por exemplo, não têm poder de mudar o resultado final e podem dar apenas algumas centenas de votos de diferença para um ou outro candidato.

Desde a vitória de Biden, Trump tem feito raras aparições públicas e não responde perguntas de jornalistas há um bom tempo. Sem apresentar provas, o presidente alega que houve fraude generalizada na eleição deste ano. Nos tribunais, no entanto, a maioria das contestações da campanha do republicano não apresenta evidências de que a disputa foi fraudada.

Grandes escritórios de advocacia, responsáveis pelas ações jurídicas do presidente contestando a eleição, passaram a ser questionados por seus clientes e se afastaram publicamente da cruzada eleitoral de Trump. 

Líderes do Partido Republicano têm feito declarações públicas se distanciando do presidente – alguns se dizendo envergonhados com o fato de Trump não aceitar a derrota. Mesmo entre os parentes do presidente há pressão para que ele se comprometa com a transição para um governo Biden.

Por enquanto, apesar de ter cedido e dado o aval para a transição, Trump insiste na narrativa de que venceu a eleição e, depois de receber 73 milhões de votos, já seria apontado como favorito à nomeação republicana para disputar a presidência em 2024. 

Já a equipe do democrata avança na agenda de transição, mesmo sem o início oficial dos trabalhos de cooperação com o atual governo. Biden tem feito reuniões, pronunciamentos diários e anunciado sua equipe.

Em nota, os democratas disseram hoje que a decisão é “um passo necessário para começar a enfrentar os desafios, incluindo o controle da pandemia e a recuperação da economia”. Ainda segundo os democratas, o início da transferência de poder é “uma ação administrativa definitiva para iniciar formalmente o processo de transição”.

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