REUTERS/Mark Makela
REUTERS/Mark Makela

Agenda do papa nos EUA coincide com prioridades de Obama

Francisco se pronunciará em favor dos imigrantes, criticará a desigualdade social e defenderá a reforma no sistema criminal americano

Claudia Trevisan, CORRESPONDENTE, WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2015 | 00h00

O papa Francisco desembarca hoje em Washington com uma agenda política que coincide com as prioridades domésticas e internacionais do presidente Barack Obama. Nos 18 pronunciamentos que fará durante a visita de seis dias, o pontífice deve se pronunciar em favor dos imigrantes e refugiados, criticar a desigualdade social e conclamar líderes mundiais a combater o aquecimento global.

O papa também deve defender reformas no sistema criminal dos EUA, país com o maior índice de encarceramento do planeta.

O trajeto da atual viagem do papa revela o peso de outro tema que o aproxima de Obama: Cuba. O papa, que ajudou os dois países a se reaproximarem no ano passado, chegará a Washington vindo de Santiago de Cuba, última etapa de sua passagem pelo país latino-americano. 

Na quinta-feira, ele se tornará o primeiro papa a discursar em uma sessão conjunta do Congresso americano, onde a maioria republicana se opõe ao reatamento de relações diplomáticas com a ilha e ao fim de sanções econômicas impostas há mais de 50 anos. A dúvida é se ele usará o pronunciamento para defender o levantamento do embargo americano à ilha.

O pontífice terá outras oportunidades para tratar do assunto: amanhã ele se encontra com Obama na Casa Branca ,e na sexta-feira, discursa na sede da ONU, em Nova York.

Muitas das posições de Francisco desagradam a integrantes do Partido Republicano, que gostariam de ver o papa se concentrar em temas caros aos conservadores americanos – entre os quais a condenação do casamento gay e do aborto.

É possível que o papa toque nesses assuntos no último evento de sua viagem – o Encontro Mundial de Famílias, na Filadélfia –, mas analistas não acreditam que essas questões estarão no centro de sua mensagem.

O evento é a razão original da visita do pontífice aos EUA. Antes de renunciar, Bento XVI havia confirmado presença no encontro, que ocorre a cada três anos, com o objetivo de discutir questões e problemas relacionados às famílias católicas. No domingo, o papa celebrará a missa de encerramento do evento, para a qual são esperadas 1 milhão de pessoas, no que será o mais concorrido dos 19 eventos programados para a visita.

Em seus 78 anos de vida, Francisco nunca esteve nos EUA, país com a quarta maior população de católicos do mundo, atrás apenas de Brasil, México e Filipinas. Os católicos representam 22% dos americanos – ou 66 milhões de pessoas – e são minoritários em relação aos protestantes. No entanto, como estes estão divididos em várias denominações, os católicos formam a igreja individual mais numerosa dos EUA.

A religião de Roma é especialmente forte entre a crescente população de imigrantes hispânicos, que serão uma das prioridades da visita do papa. Argentino, Francisco fará 14 de seus 18 discursos em espanhol e canonizará o primeiro santo latino dos EUA, o missionário franciscano Junípero Serra.

Depois de discursar na ONU, na sexta-feira, o papa se encontrará em Nova York com um grupo de 150 imigrantes e refugiados, muitos dos quais ilegais.

A reforma do sistema de imigração é uma das prioridades de Obama, que viu o Congresso controlado pelos republicanos bloquear a proposta que abria caminho para obtenção de cidadania por 11 milhões de estrangeiros que vivem nos EUA de maneira irregular. 

O catolicismo cresceu nos EUA com a chegada de imigrantes europeus no século 19 e começo do século 20. Durante décadas, os católicos eram vistos com desconfiança pela elite protestante e foram alvo de leis discriminatórias. Até hoje, os EUA tiveram apenas um presidente católico, John F. Kennedy, assassinado em 1963.

Mas o avanço em sua assimilaçāo na vida política dos EUA é evidente: 31% dos congressistas professam a religiāo, porcentual superior ao da populaçāo em geral. O vice-presidente Joe Biden é católico, assim como seis dos nove integrantes da Suprema Corte. A disputa pela Casa Branca em 2016 também vê um número recorde de católicos, com seis pré-candidatos republicanos seguidores da igreja de Roma. Dois deles, Marco Rubio e Jeb Bush, se afastaram das posiçōes de Francisco em relaçāo a Cuba e ressaltaram que a infalibilidade do papa só se aplica a questōes espirituais e nāo políticas.

O autor do convite para o papa discursar no Congresso é o presidente da Câmara dos Deputados, o católico e republicano John Boehner, que há 20 anos tenta convencer um pontífice a falar aos parlamentares americanos. "Nāo importa o que o papa tenha a falar, eu estou ansioso por ouvir", disse.

Chad Pecknold, professor de Teologia da Universidade Católica da América, acredita que o papa tocará em tópicos que serāo incômodos tanto para republicanos quanto para democratas. "Ele será bem sucedido se deixar ambos os lados desconfortáveis", observou.

Mais conteúdo sobre:
papaEUAObamaagendaprioridades

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.