Agenda lotada incomoda a presidente

A presidente Dilma Rousseff se incomoda com o excesso das agendas preparadas pelos diplomatas e nem sempre vê sentido em coisas que são consideradas quase óbvias pelo Itamaraty.

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2012 | 03h06

Anfitriã da Rio +20, uma das maiores conferências das Nações Unidas nos últimos tempos, Dilma não queria de nenhuma forma fazer o discurso de abertura do evento. Por telefone, ela ainda no México - onde participava da reunião do G-20 - e ele no Rio de Janeiro, passou uma das suas famosas descomposturas no ministro, o que ajudou a alimentar os boatos do desgosto da presidente com seu chanceler. No final, no entanto, cedeu e fez a abertura.

Em vários outros casos, no entanto, não houve negociação. Durante a própria Rio+20, Dilma recusou-se sem apelações a receber o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que tinha pedido uma reunião bilateral.

No início de abril, com a agenda cheia, mandou cancelar a visita do secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, Nguyen Phu Trong, autoridade mais alta do país. Trong estava vindo de Cuba e a recusa da presidente provocou um desconforto tal que, na semana passada, Patriota foi a Hanói tentar amaciar o humor dos vietnamitas.

Assessores próximos da presidente garantem, no entanto, que, apesar das constantes rusgas, Dilma não detesta seu ministro nem está planejando trocas no Itamaraty.

O fato de Patriota ser "excessivamente discreto", como avaliam alguns membros do governo, não desagrada à presidente. Um assessor próximo de Dilma avalia ainda que, depois da crise do Paraguai, o lugar do chanceler, se algum dia esteve a perigo, ficou agora mais firme e a presidente precisa agora é de "mais Patriota".

Em um ano e meio de convívio, o chanceler aprendeu a deixar de lado assuntos sobre os quais Dilma considera que apenas ela ou algumas pessoas escolhidas podem falar. Patriota não fala sobre negociações comerciais ou crise econômica internacionais, assuntos de Dilma. Concentra-se em temas como direitos humanos ou conflitos internacionais - mas até nisso aprendeu que precisa consultá-la. Dilma interveio, por exemplo, pouco antes da votação de uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas condenando a Síria, que o próprio Brasil havia negociado extensivamente.

Ao ser informada de que não havia consenso, mandou o Brasil abster-se poucos minutos antes da votação, o que incomodou profundamente os diplomatas.

O sinal de "quem manda aqui sou eu" já foi compreendido por Patriota, um diplomata não apenas de carreira, mas de família - seu pai e seus irmãos são da mesma área. As várias insinuações de que poderia perder o cargo e de que a presidente não gosta dele incomodam o ministro e, mais ainda, sua equipe. Até agora a presidente não se deu o trabalho de desmenti-las - o que, aliás, não costuma fazer. / L.P.

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