Agenda retrógrada pauta a eleição americana

Campanha tenta opor de maneira irreal modelos extremos do super-Estado provedor contra o reino das corporações privadas gigantescas, vorazes e incontroláveis

FRED HIATT, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Os políticos sempre querem nos convencer de que nosso futuro está à nossa frente. Mas nesta eleição de meio de mandato eles parecem, cada vez mais, direcionados para o passado.

No campo republicano, o modelo que predomina ainda é Ronald Reagan, eleito presidente há três décadas. Reagan mostrou que o governo não pode cortar impostos sem aumentar déficits, mas isso não dissuadiu os candidatos republicanos de retomarem suas teses de contos de fadas desacreditadas.

Um tema palpitante para alguns republicanos é a revogação da 17ª Emenda Constitucional, eliminando o direito das pessoas elegerem seus senadores, devolvendo a tarefa para as legislaturas estaduais. Essa revogação nos fará recuar a 1913. E ainda existem candidatos republicanos, como Christine O"Donnell, em Delaware, que permitiram que as escolas dessem aulas sobre o mito do criacionismo. O que nos levaria desta vez, oh Deus, de volta a 1859, quando Charles Darwin publicou A Origem das Espécies.

Os democratas, em compensação, recuam somente alguns anos quando tentam transformar esta eleição num referendo sobre um ex-presidente que hoje é visto especialmente em jogos finais do Texas Rangers. Mas retornam um século quando projetam essa eleição como uma luta do cidadão comum contra "os grandes bancos, as grandes empresas de petróleo e de seguros", como escreveu recentemente a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, numa carta para arrecadação de fundos, sem se importar com as doações que os democratas alegremente receberam dos "grandes bancos e grandes empresas de petróleo", quando desfrutavam de uma maioria confortável.

Esta é a primeira eleição desde o colapso do sistema financeiro americano e da experiência quase mortal vivida pela economia global.

Todos concordam que os pilares do crescimento dos Estados Unidos no passado, como crédito barato e habitação subsidiada pelo contribuinte terão de ser substituídos. Mas o que virá no seu lugar? E como se realizará essa transformação? Você talvez esperasse ver essas questões sendo debatidas este ano.

O presidente Barack Obama bem que tentou. Nos últimos dois anos ele tem postulado, com frequência e extensivamente, uma teoria da transformação econômica que os EUA necessitam, com base na reforma dos setores da saúde, educação e energia. Chegou mesmo a dizer aos americanos que eles devem "consumir menos e produzir mais", como observou Charles Lane, do Washington Post, no início deste ano.

E não parou durante a campanha. "Isto é o que defendemos", disse o presidente em um debate público na semana passada. "Inovação, pesquisa e desenvolvimento, trabalhadores especializados, formação contínua - tudo isso é necessário para nos tornarmos uma nação competitiva no século 21, e que está jogando para ser a número 1 no plano global."

Mas suas ideias não encontraram eco. Talvez, argumentarão os democratas, porque a Casa Branca não se expressou bem e os eleitores estão muito descontentes e frustrados para ouvir a voz da razão.

Talvez, dirão os republicanos, porque muitos americanos não querem um governo federal mais ativo na sociedade. Ou talvez os eleitores suspeitem que Obama aproveitou as novas circunstâncias para justificar programas que apoiaria em qualquer caso, da mesma maneira que o ex-presidente George W. Bush sempre se decidia pela mesma solução (cortes de impostos) para qualquer problema.

Portanto os democratas, incluindo o presidente, resolveram demonizar a livre empresa e a abertura para o mundo, duas coisas essenciais para tornar realidade o objetivo de Obama, que é o de nos tornarmos um país de exportadores inovadores.

Críticas violentas contra empresas que "transferem os empregos para o exterior", propaganda ameaçadora na TV, em que se afirma que o dinheiro chinês está jorrando para grupos de interesse conservadores, insinuações de que os candidatos republicanos marcham ao som dos tambores estrangeiros - todas essas são mensagens que pretendem avivar e se beneficiar do medo e da xenofobia.

Os eleitores em muitos Estados e distritos eleitorais têm assistido a debates deprimentes e retrógrados. E têm apenas duas opções, ambas torpes: o Big Government (mão forte do governo na economia) e o Big Business (grande influência das grandes empresas nas decisões de caráter político e social).

Se existem novas ideias por aí para apoiar a liderança dos Estados Unidos e restabelecer a prosperidade do país, elas não estão tendo muito espaço nos meios de comunicação. Muito menos uma explanação honesta sobre como manter o déficit sob controle.

Talvez isso seja inevitável num momento em que temos 17% de desempregados e subempregados. Ou talvez o espaço estivesse sendo deixado para candidatos, e um partido, que se comportasse como se o futuro realmente estivesse diante de nós. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EDITOR E COLUNISTA OBRAS: DE BEIRUTE A JERUSALÉM

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