Atlanctica/Divulgação
Atlanctica/Divulgação

Agente britânico infiltrado feriu revolução de 1935

Segundo documentos do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, denúncias feitas por Franz Gruber teriam ajudado a derrotar o movimento liderado por Luís Carlos Prestes

Wilson Tosta / RIO, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 05h00

Denunciado e preso por ligações com a Revolução de 1935 no Brasil, o alemão identificado como Franz Gruber foi liberado pela Delegacia Especial de Segurança Política e Social (Desps), no Rio, pouco após a eclosão do movimento. A libertação ocorreu depois que um executivo da (então canadense) Light, o sul-africano Alfred Hutt, revelou a autoridades brasileiras que Gruber era Johann Heirinch Amadeus de Graaf, apelidado Johnny. Infiltrado entre os revolucionários, Gruber, assim como Hutt, era do Secret Intelligence Service (SIS) do Reino Unido, também conhecido como MI-6. Era agente duplo. Integrava também a Internacional Comunista.

+ Acompanhe a viagem do ‘Estado’ pela Rússia, 100 anos após a revolução bolchevique

A infiltração do SIS/MI-6, por meio do espião, no movimento da Aliança Nacional Libertadora e do PCB derrotado em novembro de 1935 é descrita em depoimentos prestados por Gruber/Johnny entre 20 de dezembro de 1939 e 3 de janeiro de 1940. A transcrição, “Termo de Declarações e Resposta aos Quesitos Formulados pelo Sr. Cap. Delegado Especial”, está guardada no Fundo Desps do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj). É considerada um documento histórico precioso para entender a derrota do movimento liderado por Luís Carlos Prestes. Mas historiadores divergem sobre a importância dessa ação para a derrocada da insurreição.

Johnny contou à polícia política que soube em 26 de novembro de 1935, em uma reunião com dirigentes do PCB, que a rebelião no Rio estava marcada para o dia seguinte. A data original fora marcada pelo Bureau Sul-Americano da IC  para meados de dezembro. A revolução, porém, começara dia 23 em Natal e no dia 24 em Recife.

O infiltrado disse que monitorara Prestes e outros dirigentes comunistas nos meses anteriores, com a ajuda de sua mulher, que dirigia um Ford-Baby onde ocorriam reuniões preparatórias. Quando teve a confirmação da data, avisou ao SIS. Recebeu ordem para passar o endereço de Harry Berger (o alemão Arthur Ernest Ewert, um dos envolvidos) a Hutt. Daí, a informação passou pela embaixada britânica, Itamaraty e polícia, que fez a prisão. Torturado duramente, Berger enlouqueceu.

“(...) que ele declarante (Johnny), denunciado pelo seu professor de português, como ligado a BERGER, foi detido pelas Desps, sendo (...) restituído à liberdade, identificado na presença do capitão Miranda pelo referido ALFRED HUTT que o apresentou como agente do INTELLIGENCE SERVICE (...)”, afirma o texto.

Foi a segunda vez que Johnny entregou Berger à repressão. Em Kiang-Si, na China, onde, em nome da IC (Comintern), era assessor militar de Berger cerca de um ano antes, denunciou o centro que preparava a revolução comunista na região. Harry Berger, com um passaporte dos EUA, refugiou-se no enclave americano e dali foi para Moscou. Johnny também foi para a capital da então URSS onde, após férias, apresentou-se a seu chefe na Internacional Comunista, identificado como Vassilieff. Este lhe perguntou  se preferia voltar à China ou ir para o Brasil.

“(...) sabendo estarem os russos preparando alguma cousa no Brasil e podendo prestar serviços ao INTELLIGENCE SERVICE, preferiu vir para o Brasil; que, depois, recebeu instruções de um russo que estivera no Brasil (...) apresentando-o, em seguida, a PRESTES (...)”, continua Johnny no depoimento. O militar brasileiro lhe contou dos planos de iniciar uma revolução no Nordeste brasileiro, segundo o depoimento.

No Departamento Secreto do Comintern, Johnny recebeu recursos e passaporte em nome de Franz Gruber e instruções para um contato em Paris com um brasileiro identificado como Celso. Na capital francesa, porém, primeiro, encontrou-se com o chefe do Departamento Anti-Comintern do SIS, major Valentine Patrick Terrel Vivian, conhecido como Vee-Vee. O militar o instruiu a examinar o plano revolucionário e, se o achasse viável, avisar ao Intelligence Service, para que o contasse ao governo do Brasil. Só depois se encontrou com Celso, que avisou ao PCB no Rio de sua chegada, pelo vapor Florida, em 5 de fevereiro de 1935.

Aqui, foi apresentado a Honório de Freitas Guimarães, codinome Martins, ligado ao movimento. Vee-Vee também chegou ao Brasil, apresentando-o a Hutt, “Chefe da Seção de Gaz da Light e também agente do Intelligence Service”, com quem deveria trabalhar, segundo instruções do SIS.

Em maio de 1935, Johnny reencontrou Berger, desta vez com a mulher em Copacabana. Este o colocou em contato com o argentino Rodolfo Guiold. Ele depois o levou a Prestes, que viera da Rússia para o Brasil. O líder brasileiro disse que o plano original, circunscrito ao Nordeste caducara, e seria substituído por uma revolução nacional, com apoio da Aliança Nacional Libertadora. Por recomendação de Prestes, ministrou treinamento militar para alguns militantes.

Menos de três meses antes da insurreição, foi chamado por Prestes para saber sua opinião sobre um plano revolucionário, “afirmando PRESTES que contava com o apoio do 3.º Regimento de Infantaria, Escola de Aviação, Regimento de Campo Grande-Companhia de Metralhadoras”. Johnny ressaltou o que considerava uma falha no esquema – a exclusão das articulações do Batalhão da Polícia Militar sediado na rua São Clemente, em Botafogo. A unidade poderia barrar o avanço do 3.º R.I., que ficava na Praia Vermelha. Irritado, Prestes disse que, como oficial do Exército Brasileiro, conhecia estratégia militar.

Em setembro, em nova reunião, diante do entusiasmo do chefe militar brasileiro, Johnny voltou a manifestar dúvidas quanto ao sucesso do movimento. Prestes voltou a se irritar e não o procurou mais. Durante todo esse tempo, o agente duplo manteve contato com Hutt, a quem contava todos os detalhes da articulação, segundo contou no depoimento arquivado no Aperj.

Importância. A historiadora Marly Vianna, autora de Revolucionários de 35 –  Sonho e Realidade (1992), relativiza a importância de Johnny/Gruber para a  derrocada da Revolução de 1935. Ela diz que, pelo que apurou em pesquisa documental, não foi Gruber que denunciou o movimento.

As fontes do governo teriam sido comprovadamente três. Uma seria um oficial revolucionário da Vila Militar, que convidou colegas para o levante. A informação chegou assim ao ministro da Guerra. Outra foi Pedro Ernesto, amigo de Getúlio Vargas e aliancista, a quem o médico Eliezer Magalhães, também aliancista e irmão de Juracy Magalhães, pedira que deixasse o hospital de plantão para receber possíveis feridos. A terceira foi o general  Estillac Leal, que recebeu um bilhete de Prestes convidando-o a participar do levante, na noite de 26 de novembro, e avisou ao chefe da Polícia, Filinto Müller.

“Franz Gruber era o responsável por explosivos e um agente duplo, da União Soviética e da Inglaterra.  Não tinha feito nada em relação à fabricação de explosivos – que, pasme-se, começaram a ser produzidos a 26 de novembro – e não colocou qualquer dispositivo que deveria ser detonado e fazer explodir se fosse tentada a abertura do cofre que Prestes mantinha em casa. Graças ao que uma copiosa e preciosa documentação foi preservada”, diz a pesquisadora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.