REUTERS/Henry Nicholls
REUTERS/Henry Nicholls

Agente neurotóxico destrói o sossego de cidade britânica

Amesbury recebe informações para impedir nova contaminação, após dois casos de envenenamento em quatro meses

O Estado de S.Paulo

05 Julho 2018 | 21h38

Na pequena Amesbury, os cerca de 10 mil habitantes têm de lidar pela segunda vez, em menos de quatro meses, com o pesadelo de estar sob o risco de um agente neurotóxico e ver especialistas forenses procurando por um “assassino invisível” desenvolvido pela União Soviética nos dias de Guerra Fria. 

“É chocante e assustador”, contou Elaine Read, amiga de Dawn Sturgess. “Ninguém esperava que isso pudesse acontecer de novo. Todo mundo estava dizendo que era coisa da Rússia, mas agora são duas pessoas daqui”, disse, acrescentando que ninguém na cidade se sente mais seguro. 

Autoridades britânicas da área de saúde têm insistido que o risco para a população da cidade é baixo, mas aconselham aqueles que visitaram os locais por onde o casal passou na sexta-feira e no sábado a tomar “altas medidas de precaução”, como lavar suas roupas e limpar e esterilizar itens como celulares e bolsas. 

O novo caso de envenenamento pelo agente neurotóxico novichok no Reino Unido levantou dúvidas sobre os riscos para a saúde pública e a multimilionária operação de descontaminação que se seguiu ao primeiro caso, do ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha, Yulia. Na ocasião, foram gastos o equivalente a R$ 37 milhões.

Charlie Rowley, de 45 anos, e Dawn Sturgess, de 44 anos, foram internados no sábado no mesmo hospital da cidade inglesa de Salisbury onde foram tratados Skripal e sua filha, envenenados em março com essa substância.

O governo do Reino Unido culpou a Rússia pelo ataque. As duas últimas vítimas foram encontradas em Amesbury, cerca de 13 quilômetros de Salisbury, onde pai e filha foram atacados.

Testes para identificar a substância nos dois casos foram conduzidos por cientistas britânicos no laboratório militar Porton Down, especializado em armas químicas, que fica no vilarejo de Porton, perto de Salisbury. A natureza do grupo de agentes do novichok significa que ele não se decompõe rapidamente.

“Os agentes são desenvolvidos para serem bastante resistentes. Ficam no ambiente, não evaporam ou se decompõem rapidamente”, disse o professor de química inorgânica da University College London Andrea Sella. “Apesar de o público estar sob baixo risco com esse material, até a fonte dele ser encontrada há uma chance remota de mais alguém ter contato.” 

As autoridades trabalham com a hipótese de que o casal é vítima das consequências do ataque anterior, não que tenha sido atacado diretamente.

A polícia já isolou pelo menos cinco áreas diferentes, incluindo um parque e uma propriedade em Salisbury, além de uma farmácia e o centro comunitário de uma igreja batista em Amesbury. Após um longo tratamento, os Skripal receberam alta médica e continuam se recuperando em um local secreto e protegido pelas autoridades britânicas. 

O Reino Unido voltou a exigir nesta quinta-feira que a Rússia forneça detalhes sobre o ataque ao ex-espião russo e sobre o novo caso, desta vez envolvendo cidadãos britânicos. A Rússia, por sua vez, afirmou não ter recebido nenhuma informação das autoridades britânicas sobre o casal intoxicado. Um porta-voz do Kremlin disse que a Rússia se ofereceu para investigar conjuntamente com Londres o incidente, mas “a proposta ficou sem nenhuma resposta”.

A chancelaria russa afirmou nesta quinta-feira que o governo britânico deveria pedir desculpas à Rússia e à comunidade internacional pelas acusações contra o Kremlin. / W. POST, AP e REUTERS

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.