Christopher Gregory/The New York Times
Christopher Gregory/The New York Times

Agentes espionam quem sua demais ou vai ao banheiro em voos nos EUA

Programa usa registros de viagens e outras informações para identificar passageiros que possam ser alvo de checagem adicional; programa despertou críticas por violação à privacidade

O Estado de S.Paulo

31 Julho 2018 | 05h00

WASHINGTON - Agentes aéreos monitoram secretamente uma parcela dos passageiros aéreos nos EUA e reportam comportamentos considerados suspeitos durante voos, mesmo que o viajante não tenha qualquer ligação conhecida com terrorismo. A revelação de que passageiros que suam ostensivamente ou vão com frequência ao banheiro são alvos preferenciais de vigilância em voos despertou críticas por violação à privacidade.

Sob um sensível e até então não revelado programa chamado Quiet Skies, a Administração de Segurança de Transportes (TSA, em inglês) tem desde 2010 dado a agentes a missão de identificar passageiros que apresentem alguma suspeita em razão de seu histórico de viagens ou outros fatores e conduz observações secretas de suas ações. A revelação foi feita no domingo pelo jornal Boston Globe. 

Ao Washington Post, o porta-voz do TSA, James O. Gregory, ofereceu detalhes das origens e objetivos do programa, comparando-o a atividades policiais nas quais agentes monitoram de perto pessoas ou áreas vulneráveis. “Não somos diferentes dos policiais nas esquinas, colocados lá porque há uma grande possibilidade de algo acontecer”, disse Gregory. “Quando você está em um avião a 30 mil pés faz todo o sentido colocar alguém lá.” A TSA se recusou a fornecer informações completas sobre o programa. 

Segundo a agência, o programa usa registros de viagens e outras informações para identificar passageiros que possam ser alvos de checagem adicional no aeroporto e observados no voo. A iniciativa levantou novas dúvidas sobre a privacidade de americanos comuns enquanto estão em alguma viagem de rotina dentro dos EUA. 

Gregory disse que o programa não elege passageiros-alvo com base em raça ou religião e não pode ser considerado de vigilância porque a agência não executa atividades como ouvir as ligações dos passageiros ou seguir pessoas fora dos aeroportos. 

Mas nas observações durante os voos dos passageiros eleitos pelo Quiet Skies, os agentes usam um checklist da agência para registrar seu comportamento, se ela dormiu durante o voo, usou o celular, entre outros. “O programa analisa as informações sobre os padrões de viagem de um passageiro, levando em conta todo o cenário”, disse Gregory. “Trata-se de uma linha adicional de defesa para a segurança aérea.” Ele não disse se o programa já levou à prisão de alguém ou ao flagrante de algum plano criminoso. 

Hugh Handeyside, advogado da União Americana das Liberdades Civis, pediu à TSA que forneça mais informações sobre o programa aos passageiros. “Esse tipo de vigilância não apenas não faz sentido, como é um grande desperdício do dinheiro do contribuinte e levanta dúvidas sobre várias questões constitucionais”, disse. 

A TSA, criada logo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, monitora cerca de dois milhões de passageiros por dia. A agência tem a missão de ajudar na segurança pública, e é muitas vezes criticada publicamente por ser intrusiva e abusiva nas checagens dos aeroportos, além de cometer falhas. 

Em 2015, o inspetor geral do Departamento de Segurança Interna descobriu que agentes infiltrados foram capazes de passar bombas falsas pelas telas da TSA em cerca de 95% dos casos. A agência também tem sido criticada pelo tratamento dado a muçulmanos e outras minorias que reclamaram de terem sido marcados enquanto viajavam. 

Passageiros podem ser selecionados para o Quiet Skies em razão de sua afiliação com alguém na lista de vetados de voar ou em outro banco de dados com o objetivo de prevenir ataques terroristas. “Esse programa levanta muitas questões sobre as liberdades civis”, disse Faiza Patel, co-diretor do Brennan Center for Justice da New York University School of Law. 

Críticos dizem que a lista de vigilância e os bancos de dados do governo são excessivamente amplos e incluem informações incorretas. A lista de exclusão aérea cresceu de 16 pessoas em setembro de 2001 para 64 mil em 2014. Segundo advogados, os policiais são geralmente livres para vigiar pessoas, desde que não o façam com base em critérios como a etnia. / W. POST 

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