ENRIQUE CASTRO / AFP
ENRIQUE CASTRO / AFP

Agricultores formam grupos de autodefesa para enfrentar traficantes no México

Encapuzados e armados, eles viajam entre plantações para impedir extorsões e sequestros

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2021 | 08h00

CIDADE DO MÉXICO - Uma caravana de homens armados circula livremente por uma rodovia em Michoacán, no oeste do México. Dizem que são plantadores de abacate que se levantaram contra o assédio dos narcotraficantes, cuja violência voltou a aumentar no país.

Com fuzis em caminhonetes, os encapuzados viajam entre plantações no município de Ario de Rosales, onde mantêm postos de controle e constroem trincheiras de pedra.

"Antes os carros de abacate eram roubados e agora que as barricadas foram erguidas, nada se perde (...). Havia extorsões, sequestros", afirma à AFP um membro do grupo Pueblos Unidos, que surgiu meses atrás e assegura ter 700 homens.

"Precisamos estar armados para nos defender (...). Antes, desarmados, vinham e faziam o que queriam com a gente e isso não acontece mais", acrescenta o homem, que esconde sua identidade.

Organizações como a sua afirmam conter os cartéis, que intensificaram seus ataques nos Estados de Michoacán, Tamaulipas (nordeste, fronteira com os Estados Unidos) e Zacatecas (norte).

Em maio, ocorreram 2.963 homicídios dolosos no México e, desde janeiro, um total de 14.243 foram registrados, segundo o governo.

Em um dos eventos mais graves, em 19 de junho, supostos atiradores do Cartel do Golfo mataram 15 pessoas em Reynosa (Tamaulipas). Quatro agressores foram mortos por policiais.

Em 29 de junho, nove corpos foram encontrados perto da Ciudad Miguel Alemán (Tamaulipas), onde criminosos disputam o controle de uma ponte de fronteira com o Texas, Estados Unidos, por onde passam drogas, armas e migrantes sem documentos, segundo uma fonte de inteligência.

 

Ambiciosa agenda social de López Obrador.

Apesar disso, o presidente Andrés Manuel López Obrador se recusa a declarar guerra aos cartéis, argumentando que essa política falhou.

Ele também pediu aos Estados Unidos, o principal consumidor de drogas, que acabem com a cooperação militar e foquem no tráfico de armas. 

“Não se pode confrontar a violência com violência”, disse ele na sexta-feira sobre a situação em Aguililla, outro município de Michoacán sitiado pelo crime.

Desde dezembro de 2006, quando o governo de Felipe Calderón lançou uma ofensiva militar antidrogas com apoio dos Estados Unidos, o México acumulou cerca de 300.000 assassinatos.

Naquela época, os grandes cartéis se proliferaram até atingirem a marca de 200 grupos ativos no país, segundo a Insight Crime.

Para evitar que os jovens sejam recrutados por essas gangues, López Obrador, cuja popularidade está em torno de 60%, aposta em um maior investimento social nas zonas de conflito.

Mas sua política é criticada. Em abril, o ex-embaixador dos Estados Unidos no México, Christopher Landau, disse que o presidente mexicano vê os cartéis como uma "distração" de sua ambiciosa agenda social. 

No entanto, o presidente cogita colocar sua estratégia à prova em Aguililla, onde moradores recentemente atacaram uma guarnição com explosivos artesanais para pressionar os militares a restabelecer a travessia, bloqueada pelo CJNG e pelos Cartéis Unidos, inimigos um do outro.

Na quinta-feira, os moradores também danificaram um heliporto com escavadeiras.

Os dois cartéis buscam impedir que seu rival forneça gasolina e alimentos, a um alto custo para a população, que não pode sair para comprar alimentos. "Eles nos deixaram isolados", disse Eugenia, 35 anos, à AFP.

"Não sou partidário de que as pessoas se armem e formem grupos para enfrentar a delinquência, pois isso não dá resultados e às vezes nestes grupos se infiltram delinquentes", disse o presidente de esquerda em sua coletiva de imprensa matinal.

López Obrador se referia a uma publicação do jornal Milenio na sexta-feira, segundo o qual opera em Michoacán há oito meses uma organização armada que se autodenomina "Povos Unidos" e assegura ser formada por 3.000 agricultores que cultivam abacates e amoras.

Um dos líderes do grupo assegurou ao jornal que as comunidades decidiram pegar em armas diante da falta de proteção das autoridades frente a sequestros e extorsões de duas organizações do narcotráfico.

A milícia diz operar nos municípios de Salvador Escalante, Ario de Rosales, Nuevo Urecho e Taretan, acrescenta o informe, que inclui fotografias de pessoas encapuzadas e armadas com fuzis.

Nesta região atuam o Cartel Jalisco Nova Geração, um dos mais poderosos, e uma quadrilha conhecida como Os Viagras, que disputam o controle das atividades ilegais nesta região com saída para o Pacífico, de acordo com a publicação.

López Obrador admitiu que em Michoacán há uma "situação de insegurança e violência", mas destacou que enfrentar estes problemas é responsabilidade do governo estatal.

"Sinto desconfiança quando surgem grupos assim. Aparentemente porque não têm segurança (...), mas costuma ocorrer que esta situação é usada para proteger ou acobertar delinquentes", afirmou o presidente.

Em Michoacán e o vizinho estado de Guerrero já operavam ou existiram no passado grupos de autodefesa, como o que surgiu em 2013 para enfrentar os narcotraficantes da Família Michoacana e os Cavaleiros Templários.

Após desmantelar este último grupo, o governo do presidente Enrique Peña Nieto (2012-2018) obteve um acordo com a autodefesa para incorporá-la a uma polícia comunitária.

A nova milícia diz ser financiada por empresários e produtores de abacate, aos quais "sai mais barato comprar um fuzil do que pagar extorsões", segundo Milenio. / AFP

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