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Agricultura, Apple e Google

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Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2014 | 02h03

As empresas de TI e internet exercem, por muitas razões, grande atração na mídia. A agricultura, muito menos. Enquanto tudo isso sucede com empresas de tecnologia, nos mercados agrícolas estão sendo batidos recordes que, apesar de não atraírem tanta atenção, terão consequências enormes para bilhões de pessoas.

Vocês sabiam que o mundo está colhendo mais grãos do que nunca? Que embora haja mais consumo, a produção é tão alta que silos estão transbordando? O Conselho Internacional de Grãos estima que os estoques de soja, trigo, cevada, milho e outros grãos alcançarão o maior volume em 30 anos. Nos EUA, a safra de milho deve superar a do ano passado (que foi a maior da história). Também a de soja foi maior do que nunca. A Europa está batendo recordes com suas colheitas de trigo e milho, enquanto o Canadá o faz com as de trigo, cevada e aveia.

"Esta nova abundância reduzirá a renda dos agricultores, aumentará as margens de lucro das empresas de alimentos e biocombustíveis e, eventualmente, reduzirá a inflação de preços dos alimentos tanto nos países ricos quanto nos mais pobres", escreveu Gregory Meyer no Financial Times.

E qual é a razão para esta explosão na produção de grãos? O aumento dos preços, que estimulou essa expansão agrícola e teve quatro razões principais: o aumento da população mundial, o aumento do consumo de comida em países pobres, o uso de grãos para a produção de combustíveis e a maior frequência de eventos climáticos extremos que danificam colheitas. Esses fatores não se atenuaram, mas os altos preços que produziram foram um incentivo para aumentar a produção para volumes sem precedentes - o que, naturalmente, induz a queda nos preços.

Dentro de alguns anos, os preços baixos podem desestimular novamente o investimento e levar a quedas na produção como as que afetaram o mundo recentemente. Essa maior volatilidade será uma fonte de instabilidade num setor de grande importância tanto social quanto geopolítica. Estima-se que cerca de 20% da população mundial está diretamente envolvida em atividades agrícolas.

Embora em nível mundial a agricultura pese muito pouco como atividade econômica, nos países mais pobres ela tende a ser muito importante. Na Índia, por exemplo, a agricultura representa 18% da economia e gera 54% dos empregos.

Tanto a demanda quanto a oferta de produtos agrícolas experimentaram mudanças dramáticas nos últimos 50 anos. Uma das mais notáveis é a concentração da produção em poucos países. Segundo Julián Alston e Philip Pardey, Índia, EUA, Rússia, China e Brasil concentram 42% das áreas cultivadas do mundo. Por contraste, os cem países com menor atividade agrícola só têm 0,78% da superfície cultivada.

Os especialistas também chamam a atenção para a rápida queda do investimento em pesquisa agrícola, que ocorre ao mesmo tempo em que mudanças climáticas, econômicas e sociais transformam a agricultura e exigem novos conhecimentos e técnicas mais mordernas.

Não faria mal, talvez, que o pessoal da Apple, do Google e de outros titãs do mundo moderno começassem a aplicar sua criatividade para melhorar a atividade econômica mais antiga da humanidade. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Moisés Naím é escritor venezuelano e membro do Carnegie Endowment 

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