Água, fonte de tensão entre Índia e Paquistão

Islamabad teme que construção de hidrelétrica dê a Nova Délhi o poder de manipular a água do Rio Indus e afluentes, que abastecem a região agrícola paquistanesa

Lydia Polgreen, Sabrina Tavernise The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2010 | 00h00

Em Bandipore, neste vale do alto Himalaia, do lado da Caxemira, uma nova linha de batalha entre Índia e Paquistão foi traçada. Desta vez não é por causa da terra, que vem sendo disputada desde a sangrenta divisão da Índia Britânica, em 1947, mas pela água que desce dos glaciares para os campos ressecados do centro agrícola do Paquistão.

Os trabalhadores indianos estão com pressa, construindo uma caríssima hidrelétrica num vale próximo, um dos diversos projetos da Índia para os próximos dez anos para impulsionar sua economia que cresce rapidamente, mas carece de energia.

No Paquistão, o projeto vem provocando temores de que sua arquirrival, onde se encontram as nascentes dos rios, terá o poder de manipular a água que abastece toda a região agrícola paquistanesa, que representa um quarto da sua economia e emprega metade da população.

Em maio, o caso foi levado à Corte Internacional de Arbitragem. A água é hoje uma fonte crescente de tensão entre países que lutam para crescer. Diversos países africanos estão numa intensa discussão sobre os direitos à água do Nilo. Israel e Jordânia reivindicam o Rio Jordão. Por toda a região do Himalaia, os próprios projetos de hidrelétricas da China estão preocupando a Índia, sua rival na busca do poder regional, e mesmo global.

A disputa entre Paquistão e Índia vem acrescentar mais volatilidade num momento crucial para um dos mais delicados relacionamentos entre dois países que possuem armas nucleares e se estranham profundamente. A disputa pode perturbar as delicadas negociações para uma retomada de conversações de paz paralisadas desde que militantes paquistaneses mataram 163 pessoas nos atentados de Mumbai, em 2008. Os EUA mostram-se particularmente ansiosos para acalmar as tensões, de modo que o Paquistão possa desviar suas tropas da fronteira com a Índia para sua fronteira com o Afeganistão, para combater o Taleban. Nacionalistas anti-Índia e militantes no Paquistão apoderaram-se do problema como uma nova fonte de cólera para perpetuar 60 anos de antagonismos.

Jamaat-u-Dawa, braço do grupo militante Lashkar-i-Taiba, responsável pelos ataques em Mumbai, já adaptou seu trabalho de relações públicas para circunscrevê-lo a essa disputa sobre a água, pois até agora concentrava-se nas reivindicações de terra para a Caxemira.

Com suas populações se expandindo rapidamente, a água é crucial para os dois países. O Paquistão tem o maior sistema de irrigação contíguo do mundo, dizem especialistas da área. E tornou-se um terreno fértil para o recrutamento de grupos militantes, que se aproveitam da falta de oportunidades e o sentimento anti-Índia cada vez mais intenso. Os rios que atravessam o Punjab, a mais populosa província do Paquistão e centro da sua indústria agrícola, são a salvação do país. As altercações sobre o uso dos rios têm a ver com seus temores em relação a seu vizinho maior e mais forte.

No caso da Índia, as novas hidrelétricas são vitais para utilizar a água do Himalaia e pôr fim à grave escassez de energia que emperra sua economia.

Cerca de 40% da população da Índia não tem energia elétrica e a falta de eletricidade é um obstáculo para a indústria. A barragem de Kishenganga é uma parte crucial dos planos da Índia para resolver o problema.

O projeto indiano vem sendo arquitetado há décadas e se enquadra num tratado de 50 anos que divide o Rio Indus entre os dois países.

"O tratado funcionou bem no passado, em grande parte porque os indianos não estavam fazendo nenhuma construção", diz John Briscoe, da Universidade Harvard. "Desta vez, há uma bateria de projetos hídricos." O tratado, resultado de uma década de negociações que se encerraram em 1960, dá ao Paquistão 80% das águas do Rio Indus e seus afluentes, uma proporção que os nacionalistas no Paquistão costumam esquecer. A Índia tem permissão para usar parte da água para a agricultura, água potável e também geração de energia, desde que não armazene demais.

Embora a represa de Kishenganga esteja autorizada pelo tratado, a disputa é sobre como ela deve ser construída e como será a distribuição da água. O Paquistão alega que, a drenagem na base na represa permitirá à India manipular o fluxo de água quando desejar, por exemplo, durante um período de plantio.

A Índia rejeita as alegações de tentou roubar água. O secretário do Exterior da Índia, Nipurama Rao, qualificou as afirmações de "propaganda nacionalista", acrescentando que "o mito do roubo de água não passaria num exame racional do caso". Especialistas concordam, mas dizem que o Paquistão tem um motivo legítimo de preocupação. O problema, na verdade, tem a ver com o tempo. Se a Índia decidir encher suas represas num momento vital para a agricultura do Paquistão, poderá arruinar as plantações paquistanesas. Em Bandipore, onde engenheiros e operários trabalham longos turnos para construir a hidrelétrica e um túnel para a esperada barragem, o trabalho não tem a ver só com eletricidade, mas é uma questão de orgulho nacional. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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