Água traz esperança e temor em Darfur

Descoberta de lago subterrâneo em solo árido pode ser salvação ou agravar conflito que deixou 200 mil mortos

Lydia Polgreen, do The New York Times, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

O anúncio de pesquisadores da Universidade de Boston há duas semanas de que um vasto lago subterrâneo havia sido descoberto embaixo do solo árido do norte de Darfur, uma região do Sudão assolada há quatro anos por uma guerra que a tem encharcado de sangue, foi recebida com grande esperança. Seria esse lago - com uma superfície maior do que a área de Sergipe - a salvação de um conflito que já deixou pelo menos 200 mil mortos e mais de 2,5 milhões desalojados? Essa esperança se constrói sobre um argumento oferecido por um relatório da ONU divulgado em maio e um artigo no Washington Post assinado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, de que a degradação ambiental e os sintomas do aquecimento global estão nas raízes da crise em Darfur. "Existe um forte vínculo entre degradação da terra, desertificação e conflito em Darfur", diz o relatório Programa Ambiental da ONU. O documento observa que o índice pluviométrico no norte de Darfur diminuiu em um terço nos últimos 80 anos. "O crescimento exponencial da população e a tensão ambiental a ele relacionada criaram as condições para o surgimento e sustentação de conflitos por diferenças políticas, tribais ou étnicas", diz o relatório. A idéia de que mais água poderia desarmar a crise é sedutora. Os conflitos africanos, do Congo à Libéria, do norte de Uganda a Angola, costumam desafiar todos os esforços para resolvê-los. A explicação científica para o problema (degradação ambiental) junto com uma solução tecnológica límpida (irrigação) gratifica o impulso humanitário moderno. Mas a história do Sudão, uma crônica sombria de guerra civil, fome, golpes e despotismo, dá amplas razões aos céticos. "Como todos os recursos, a água pode ser uma bênção ou uma maldição", disse Alex de Wall, um pesquisador que estudou o impacto da variação climática no país e testemunhou a fome de 1984-95, citada como o início da crise ecológica que assola Darfur. "Se o governo agir conforme o esperado, tentar criar uma espécie de oásis no deserto e controlar quem sem estabelece ali, isso seria apenas uma extensão da crise, não uma solução." Mas uma catástrofe ambiental não pode se tornar um conflito sem uma mão humana poderosa para guiá-la nessa direção. "Esses fatores ambientais mais amplos não causam impacto por si mesmos. A questão é como são gerenciados", disse De Waal. Embora diferentes regiões e grupos sociais sofram, o Sudão como um todo tem riquezas naturais para dispor, em petróleo, solo fértil e até água. Sucessivos governos sudaneses e seus precursores coloniais adotaram políticas agrícolas que quase sempre conduziram a conflitos. Eles deram prioridade às grandes fazendas mecanizadas e esquemas complexos de irrigação controlados pelo governo, e não às fazendas menores, alimentadas pela chuva, que formam a espinha dorsal da economia rural em boa parte do Sudão. No leste do país, onde uma rebelião vem fermentando há anos, o povo Beja alimenta ressentimentos desde que a Grã-Bretanha e o Egito governaram o Sudão na primeira metade do século 20. Os programas de irrigação para a agricultura comercial privaram os Beja de suas principais terras. Os governos pós-coloniais, que nos primeiros anos tiveram a bênção do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), se apropriaram de vastas extensões de terra em nome do desenvolvimento agrícola, transformando agricultores que trabalhavam em sua própria terra em trabalhadores assalariados do Estado. Um novo e vasto projeto agrícola numa fatia em grande parte despovoada do norte de Darfur mais provavelmente se encaixará nesse padrão destrutivo, disse John Prendergast, um fundador do Enough Project, uma iniciativa do Centro para o Progresso Americano e do Grupo de Crise Internacional para abolir o genocídio e as atrocidades em massa. "A mudança climática e a falta de chuva são bem menos importantes que os padrões de uso da terra promovidos pelo governo do Sudão e as políticas de desenvolvimento do Banco Mundial e do FMI, que se concentraram na expansão da agricultura intensiva que realmente exauriu os solos e deixou muita terra imprestável", disse Prendergast, que vem estudando o Sudão há 20 anos. Um relatório divulgado no ano passado pela Coalizão por Justiça Internacional sobre o papel que o petróleo e a agricultura mecanizada jogaram nos abusos contra direitos humanos no Sudão, conclui: "A base predominante do conflito no Sudão é a instabilidade resultante do abuso sistêmico dos pobres (e recém-urbanizados) rurais nas mãos das elites econômicas e políticas do Sudão central." Nessa análise, o cerne do conflito de Darfur, como em todos conflitos no Sudão, é a batalha pelo controle de recursos e riquezas, mas não entre agricultores e pastores, nortistas e sulistas, cristãos e muçulmanos, ou árabes e não-árabes. É um conflito entre as elites, que controlam o Sudão e sua riqueza há um século e meio, e os miseráveis que imploram por comida nas periferias. Enquanto essa equação não se alterar, muitos analistas argumentam, nada mudará.

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