Hasan Sarbakshian/AP-29/7/2008
Hasan Sarbakshian/AP-29/7/2008

Ahmadinejad surpreende e demite chanceler

Há muito tempo o presidente queria destituir Mottaki, com quem teve vários atritos, mas era impedido pelo aiatolá Khamenei

, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2010 | 00h00

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, demitiu ontem inesperadamente o chanceler Manouchehr Mottaki, em um sinal da disputa no alto escalão da teocracia islâmica enquanto o país enfrenta pressões por causa de seu programa atômico.

Ahmadinejad não deu explicações sobre a demissão de Mottaki, que foi substituído interinamente pelo chefe nuclear iraniano, Ali Akbar Salehi. Já se sabia que havia muito tempo o presidente queria substituir seu chanceler, mas ele tinha sido impedido pelo líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, que tem a palavra final na nomeação dos responsáveis por vários ministérios.

A destituição de Mottaki é vista como uma vitória de Ahmadinejad e um aparente aumento de seus poderes, apesar de ainda não estar claro que mudanças ocorreram na política iraniana que permitiram a demissão. Mottaki também é considerado um aliado do presidente do Parlamento, Ali Larijani, que perdeu as eleições presidenciais de 2005 para Ahmadinejad e agora trava uma disputa com o presidente sobre os poderes do Parlamento e do Executivo. Alguns analistas veem a saída de Mottaki como resultado da disputa entre Ahmadinejad e Larijani.

Ahmadinejad e Larijani, assessor de Khamenei para assuntos nucleares, também têm discutido por causa do controvertido programa presidencial para a supressão de subsídios. O projeto, que ainda não foi aplicado, foi reduzido e bloqueado em várias ocasiões pelo Parlamento, presidido por Larijani.

Em uma carta divulgada ontem, Ahmadinejad manifestou sua gratidão a Mottaki pelos serviços prestados nos cinco anos em que ele esteve no cargo. Mottaki, considerado o rosto do Irã para grande parte do Ocidente, era ministro de Relações Exteriores desde que Ahmadinejad foi eleito pela primeira vez, em 2005. Agora, o presidente deve instalar no cargo uma pessoa leal a ele, em meio à retomada de negociações de Teerã com as potências mundiais sobre o programa nuclear iraniano.

"Essa medida mostra não apenas as tensões internas, mas a primazia da questão nuclear sobre os objetivos de política externa do Irã", disse Rasool Nafisi, um especialista em Irã na Strayer University, em Virginia.

Deputados iranianos também pressionavam pela destituição de Mottaki caso o país fosse alvo de novas sanções, que acabaram sendo aprovadas em junho por causa da recusa do Irã de suspender seu programa de enriquecimento de urânio. Para muitos políticos, as sanções foram aprovadas por que Mottaki não demonstrou um caráter mais combativo.

Alguns dos choques entre o presidente e Mottaki acabaram se tornando públicos. Neste ano, Mottaki se opôs à decisão de Ahmadinejad de designar seus enviados especiais para áreas-chave como Oriente Médio, Afeganistão e a região do Mar Cáspio. Na ocasião, Mottaki considerou a medida vergonhosa para a chancelaria e apresentou sua reclamação a Khamenei. Segundo informações, o líder supremo apoiou Mottaki, o que levou o presidente a moderar sua posição e designar os enviados especiais somente como assessores.

Mottaki, um diplomata de carreira, recebeu a notícia sobre sua destituição durante visita oficial ao Senegal, na metade de um tour por países africanos.

Ahmadinejad queria que Salehi fosse seu chanceler quando foi eleito em 2005, mas pressões de facções o fizeram aceitar Mottaki. Com doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), Salehi se tornou em 1997 a face internacional do programa nuclear de Irã quando foi indicado embaixador na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). No cargo, ele teve de defender o que o Irã percebe como seu direito de obter uma tecnologia pacífica. / AP e REUTERS

PARA ENTENDER

O Irã concordou em retomar as negociações no mês que vem com o chamado P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - EUA, China, Rússia, França e Grã-Bretanha - mais a Alemanha). No entanto, o país rejeita suspender seu programa de enriquecimento de urânio. O Irã diz que ele tem fins pacíficos, apenas para geração de energia, mas as potências temem que o urânio possa ser usado em armas atômicas. Em maio, a AIEA disse que o Irã já tinha produzido 2,5 toneladas de urânio que, se enriquecido a altos níveis, poderia ser usado em duas bombas.

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