Ahmadinejad tem também razões para comemorar

Análise

Jackson Diehl, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2010 | 00h00

O presidente Barack Obama considerou um triunfo a aprovação pelo Conselho de Segurança da ONU de novas sanções contra o Irã. Mas seu colega iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, também tem razões para alegrar-se. Pode-se dizer que a resolução aprovada em Nova York é tardia, frágil e com mais probabilidade de amenizar - em vez de reforçar - o isolamento do Irã.

Não é difícil imaginar o comunicado que um porta-voz do governo iraniano estaria fazendo agora em Teerã. Ele chamaria a atenção para o que Obama prometeu: uma recusa do Irã em iniciar negociações sérias envolvendo seu programa nuclear conduziria a sanções terríveis. Durante sua campanha, Obama chegou até a sugerir que as sanções deviam ser direcionadas para as importações de gasolina do Irã - o que especialistas descrevem como o tendão de Aquiles da sua economia.

As sanções aprovadas não atingem nem a gasolina do Irã nem seu setor de energia. Elas permitirão que a China continue a desenvolver três grandes campos de petróleo, além de refinarias que acabarão com a necessidade de o Irã importar gasolina. A Rússia poderá começar a operar a usina nuclear de Bushehr em alguns meses. Obama não conseguiu que fossem votadas sanções diretas contra o Banco Central do Irã, tampouco contra sua linha de transporte marítimo. E a proibição da venda de armas apresenta uma enorme lacuna: os russos também têm a possibilidade de fornecer um sistema de mísseis antiaéreos que será a melhor defesa contra algum ataque às suas instalações nucleares por EUA ou Israel.

A propósito, o porta-voz de Ahmadinejad poderia adicionar ainda que as sanções foram votadas seis meses depois do que queriam os EUA. Nesse período, centrífugas iranianas enriqueceram mais 900 quilos de urânio, elevando um estoque que já era suficiente para uma bomba atômica a um nível que permite a fabricação de dois artefatos. Esse processo já se iniciou. Teerã, recentemente, começou a aumentar o nível de enriquecimento do seu urânio, de 3,5% para 20%.

Brasil e Turquia. E quanto ao vexame de ser alvo de uma resolução da ONU? Examinemos o assunto de perto, poderá dizer o porta-voz iraniano. As três sanções anteriores foram aprovadas sem um voto negativo. Duas foram adotadas por unanimidade. A terceira, com uma abstenção. Desta vez, o Líbano se absteve e houve dois votos negativos, de potencias regionais emergentes, que até agora foram aliados fiéis dos EUA: Brasil e Turquia.

O encontro dos presidentes turco e brasileiro com Ahmadinejad em Teerã - e a vigorosa oposição deles às sanções - foi, com certeza, um grande afago ao Irã, como a votação da ONU na quarta-feira foi para os EUA. Mostrou que o apoio internacional a Teerã está se fortalecendo, mesmo quando o país fica cada vez mais próximo de produzir uma bomba. China e Rússia não perderão nada: Ahmadinejad visitará Xangai hoje para inaugurar o pavilhão do Irã numa feira mundial.

O presidente iraniano está se fortalecendo em casa também. Há alguns meses, ele e o líder supremo, Ali Khamenei, lutavam contra a oposição, que tentava controlar as ruas de Teerã e outras cidades grandes do país. Agora, quase um ano depois, as ruas estão calmas. No momento, pelo menos, o "movimento verde", de oposição, foi reprimido. Obama pode comemorar, dirá o porta-voz iraniano. Em público, vamos reagir com raiva. Mas, nos bastidores, temos razões para celebrar. Hoje, nosso governo está mais perto de produzir uma bomba atômica e, tanto em casa quanto no exterior, mais seguro do que há um ano.

É SUBEDITOR DE OPINIÃO DO "WASHINGTON POST"

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