Aiatolá denuncia 'conspiração ocidental'

Para cúpula de república islâmica, EUA e europeus estão 'apavorados' com a eleição

ROBERT F. WORTH, THE NEW YORK TIMES, WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2012 | 03h01

Nos dias que antecederam as eleições parlamentares de hoje no Irã, o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e outras autoridades do alto escalão do governo atravessaram o país e fizeram sérias advertências contra uma vasta conspiração ocidental para arruinar a eleição. A imprensa oficial intensificou a campanha: "EUA apavorados com a participação dos iranianos nas eleições" é uma frase comumente vista na Press TV, emissora estatal.

A votação de hoje é primeira a se realizar desde a eleição presidencial de 2009, que desencadeou acusações generalizadas de fraude. Até agora, as autoridades tentaram mobilizar os eleitores usando os métodos chauvinistas de sempre, dizendo-se assediadas por um Ocidente arrogante.

Veteranos de guerra saem às ruas para incentivar os eleitores a comparecer às urnas e o ministro da Inteligência, Heydar Moslehi, vem alertando sobre complôs insidiosos para impedir as pessoas de votarem. "Uma eleição vibrante servirá como um murro vigoroso na boca do inimigo", disse o aiatolá Khamenei na quarta-feira durante um comício a noroeste do Irã.

Um comparecimento maciço às urnas pode ser especialmente importante agora, diante das perspectivas sombrias da economia e um cenário político cada vez mais fragmentado. As novas sanções impostas este ano por EUA e Europa tiveram impacto sobre o setor privado e a classe média do país. E o aiatolá Khamenei parece cada vez mais impopular, com alguns conservadores quebrando o tabu e criticando-o abertamente.

Ao mesmo tempo, muitos analistas afirmam que o governo deverá reportar uma participação de 60% do eleitorado, independente do que ocorrer no dia da eleição. Ao contrário de 2009, os protestos são improváveis mesmo se houver nítidas indicações de fraude, uma vez que as expectativas em torno da eleição são muito baixas, disse Mehrzad Boroujerdi, professor de ciência política da Universidade de Siracuse.

O alto índice de comparecimento também não será um sinal claro de apoio ao Estado: muitos iranianos votarão para não enfrentar problemas, pois seu documento de identidade já aparece nas mesas de votação.

Se alguma situação dramática ocorrer, isso será em razão da disputa implacável entre dois grupos de conservadores: os aliados do presidente Mahmoud Ahmadinejad e uma facção radical de clérigos e comandantes da Guarda Revolucionária que apoiam Khamenei. Embora ninguém da classe política iraniana ouse desafiar o aiatolá abertamente, Ahmadinejad tem conseguido fortalecer o poder da presidência desde que foi eleito pela primeira vez em 2005, e espera manter a influência por meio dos seus aliados no Parlamento mesmo depois de concluir seu segundo mandato, em 2013. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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