''Ainda é muito cedo para falar no fim da guerrilha''

Andrés Mejía, diretor acadêmico do Observatório de Política e Estratégia para a América Latina do Instituto de Ciência Política de Bogotá

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

É realista falar em início do fim das Farc depois da morte de Mono Jojoy?

Não. É prematuro. A morte dele foi um golpe devastador, mas ainda estamos longe do fim das Farc. A organização tem cerca de 8 mil membros e já mostrou no passado sua capacidade de adaptação. Além disso, a geografia colombiana, ampla e com muitos lugares de difícil acesso, permite que um grupo rebelde encontre refúgio fácil nas montanhas e nas selvas. As Farc também têm um conceito camponês de paciência, o que lhe dá grande vantagem numa luta prolongada. Apesar de tudo isso, a guerrilha está no momento mais difícil de sua história, pelos duros golpes sofridos, tanto em termos numéricos quanto na qualidade e na importância dos combatentes que foram mortos.

O quanto ainda existe de componente ideológico nas Farc?

Muito. Tem sido um erro persistente acreditar que, por terem se dedicado ao narcotráfico, as Farc tenham abandonado sua ideologia. O narcotráfico, o terrorismo e os crimes são instrumentos que servem ao propósito político da tomada do poder com a finalidade de impor uma doutrina marxista-leninista. O apego a isso pode ser verificado tanto nos documentos e comunicados da cúpula quanto no doutrinamento dos combatentes mais baixos. Eles nunca ocultaram seu objetivo de tomar o poder político.

Se, nessa ofensiva do governo, a guerrilha ficar sem saída, buscará abrigo nos países vizinhos?

É muito provável que alguns comandantes façam isso. A Colômbia vem pedindo cooperação a esses países e, pelo que se vê hoje, as perspectivas são melhores do que antes. É preciso considerar, porém, que essa mudanças de terreno seria uma dificuldade radical para os líderes das Farc. Refugiar-se no exterior significaria para eles o exílio e diminuiria sua capacidade. Além disso, se buscarem refúgio nos países vizinhos, poderiam irritar os governos desses países e provocar atrito entre os líderes da região. Nesse caso, eles não poderiam fazer mais do que realizar pequenos ataques e, em seguida, cruzar a fronteira de volta.

Há alguma chance de as Farc abandonarem as armas e entrarem para a vida política civil?

Não seria fácil. Primeiro, porque eles veem a si mesmos como uma organização revolucionária para a qual as conversações de paz não são mais do que um instrumento para a tomada do poder. É isso que faz com que elas sejam cada vez menos aceitas como atores políticos e a sociedade perca a confiança no que elas dizem. Além do mais, elas se envolvem de modo tão profundo em crimes graves que fica difícil pensar numa anistia. As Farc cometeram crimes de guerra e contra a humanidade que, pelo direito internacional, não podem ser indultados. Os antecedentes de terrorismo e crueldade também fazem com que a sociedade só aceite a desmobilização se não houver privilégios políticos aos guerrilheiros.

Países que viveram décadas imersos em conflitos armados têm dificuldade em imaginar-se num cenário de paz. Como seria a Colômbia sem as Farc?

Muito mais próspera e estável. Nossa sólida tradição constitucional estaria livre de seu maior obstáculo, que é o conflito. Mas teríamos problemas típicos de situações de pós-conflito, como a reinserção dos combatentes. Nós já vivemos isso com a desmobilização dos paramilitares, que, suspeita-se, estejam por trás do aumento da criminalidade nas cidades. Mas, mesmo assim, valeria a pena tentar.

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