Ainda em recessão, Espanha tem desemprego recorde

País registrou taxa de 18,8% em 2009, a mais alta em números absolutos nos registros do governo.

Anelise Infante, BBC

29 de janeiro de 2010 | 13h06

A taxa de desemprego da Espanha em 2009, anunciada pelo governo nesta sexta-feira, alcançou 18,83% da população ativa, o registro mais alto desde 1998.

Em números absolutos, isso representa cerca de 4,3 milhões de trabalhadores na rua - o pior índice já registrado desde que as autoridades começaram a compilar dados sobre o assunto.

Trata-se do terceiro ano consecutivo de aumento do desemprego na Espanha, a quinta maior economia da Europa. Em 2008, a taxa de desemprego no país havia ficado em 13,91%.

Segundo o governo, também subiu em 2009, 47,5% em relação ao ano anterior, o número de lares onde todos os membros em idade produtiva estão sem trabalho.

Recessão persistente

Recentes previsões apresentadas em um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que a Espanha será a única nação do G20 que permanecerá em recessão em 2010.

As estimativas do FMI são de retração do PIB espanhol em 0,6% neste ano e de crescimento de 0,9% para 2011. De acordo com o fundo, a média dos países ricos terá crescimento de 2,1% em 2010 e os emergentes, de 6% - 4,7%, no caso do Brasil.

O chefe de Estudos Econômicos Globais do FMI, Jörg Decressin, disse na apresentação do relatório da entidade que o problema da Espanha continuava sendo a produtividade.

Uma teoria também defendida pelo professor de economia pública da Universidade de Oviedo, Roberto Fernandez Llera que acha que "a economia espanhola precisa de uma mudança de mentalidade".

"Depois de um modelo esgotado baseado na alta concentração no mercado de serviços, é necessário reconduzir os recursos porque não há recuperação sustentável sendo o 35º país do mundo no ranking de competitividade", disse à BBC Brasil.

Para o Instituto de Economia Mundial Kiel, o desemprego continuará sendo um calcanhar de Aquiles internacional, embora o caso da Espanha seja o mais grave.

As últimas previsões da organização alemã indicam que a taxa espanhola (20%) será quase o dobro da média de desempregados na zona do euro (10,2%) em 2010.

Críticas

Os números econômicos estão provocando muitas críticas ao governo do premiê José Luis Rodriguez Zapatero, acusado de não tomar medidas para sair da crise.

Até o presidente do Banco Central espanhol pediu uma mudança de rumo na política econômica do governo, alertando que "se não há medidas urgentes ou não são suficientemente ambiciosas, poderia haver um longo período de sérias dificuldades".

Os analistas espanhóis estão de acordo e recomendam aos investidores procurar um refúgio nos países emergentes enquanto o mercado nacional não cresce.

"As grandes empresas espanholas estão se agarrando cada vez mais aos territórios estratégicos como o Brasil, porque supõe um respiro nestes momentos", disse à BBC Brasil o analista de IG Markets, Daniel Pingarrón.

A saída, segundo os especialistas, está na diversificação geográfica para diminuir a dependência do consumo interno.

"Veja o exemplo da Prosegur (empresa de segurança privada). Suas estimativas de lucro aumentaram em 9% depois de anunciar novos contratos no Brasil no momento em que o real se valorizou 17% em relação ao euro. O que todos esperam é que o mercado brasileiro continue dando surpresas positivas", afirmou à BBC Brasil, Alberto Morillo da consultoria Consulnor.

Recuperação

Sobre a recuperação da economia espanhola os especialistas preveem um panorama complicado.

Uma pesquisa da consultoria PricewaterhouseCoopers feita no fim de 2009 com 317 investidores, empresários e analistas, destacou que 97% dos entrevistados consideram a situação da Espanha "ruim ou muito ruim".

Sobre a recessão, acreditam que poderá haver recuperação até o fim de 2010 em função da conjuntura internacional. Se Estados Unidos e Europa melhorarem, o resultado arrastará a Espanha.

Em relação ao modelo produtivo espanhol a resposta é unânime. Todos os entrevistados acham que "o atual padrão de crescimento do país é inviável" e as medidas do governo "contribuem pouco ou muito pouco" para acabar com a crise.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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