Ainda sem definir poderes do futuro presidente, Egito encerra 1º turno

Voz das urnas. Primeiros resultados parciais da eleição presidencial mais importante até agora da Primavera Árabe só serão divulgador a partir de amanhã; quatro candidatos - entre religiosos e membros do regime de Mubarak - têm chances de ir ao 2º turno

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2012 | 03h06

O Egito deu ontem mais um passo em seu processo de transição política ao concluir, sem incidentes graves, o primeiro turno da eleição presidencial. Segundo a imprensa local, a maior parte dos egípcios deixou para o último dia sua escolha nas urnas. Mesmo assim, as filas nas seções visitadas pelo Estado eram pequenas. Observadores afirmam que, até o momento, está sendo legítima a principal votação presidencial da Primavera Árabe.

As regras que determinarão o mandato do presidente eleito, porém, não foram definidas. A Constituição da ditadura Hosni Mubarak foi extinta e a junta militar que comanda o Cairo há 15 meses vem governando por decretos. Caberá ao próximo líder, juntamente com o Parlamento - e os generais -, definir seus próprios poderes.

"As Forças Armadas parecem realmente querer que a escolha seja livre, independentemente de quem for o próximo presidente", disse Mohamed Ghonim, diretor do Positive Movement, uma das ONGs que monitoram a votação. Ele elogiou a Comissão Eleitoral, controlada pelos militares, que acatou "praticamente todas" as recomendações dos ativistas. É improvável que algum dos 13 candidatos consiga, já nesta etapa, mais de 50% dos votos e quatro concorrentes têm chances de chegar ao segundo turno. Todos são islâmicos ou figuras seculares que ocuparam postos-chave no antigo regime.

Mahmoud Gamal el-Din, representante da Andalus, outra organização que monitorou as eleições, relatou "apenas pequenos incidentes". Alguns integrantes da Irmandade Muçulmana teriam feito campanha perto dos locais de votação. Mas os militares - que fazem a segurança externa de todas as seções - teriam sido acionados. "Acho que coisas desse tipo devem acontecer no Brasil também, não?"

Moustafa Hassen, estagiário de 25 anos em um escritório de advocacia, decidiu votar apenas ontem, aproveitando que a junta militar decretara ponto facultativo em todo Egito. Os 36º C no Cairo durante o dia fizeram com que muitos aguardassem o final da tarde para ir votar. "Votei (no ex-chanceler) Amr Moussa porque ele é a melhor opção. Os outros são muito despreparados, nunca ocuparam cargos importantes, ou são amigos de Mubarak", afirmou Hassen, após votar em uma escola na Praça Talal Harb, zona comercial do Cairo. "Para mim, o pior seria ver o país na mão dos islâmicos".

Na mesma seção eleitoral, Yassin el-Kurdi, engenheiro de 56 anos, votavam em Abdel Moneim Abou Fotouh, ex-integrante da Irmandade que entrou na corrida como candidato independente. "Fotouh é o único capaz de unir o Egito, aplicando a sharia (lei islâmica) sem desrespeitar a diversidade do nosso país", defende. Embora seja líder histórico da irmandade, o político recebeu apoio tanto dos ultrarradicais islâmicos salafistas quanto de grupos seculares de esquerda. Ontem, os dois favoritos do campo secular trocaram farpas. Em entrevista à BBC, Moussa acusou o último premiê da ditadura, Ahmed Shafiq, de espalhar "rumores sinistros" de que ele estava prestes a retirar sua candidatura. No dia anterior, o comboio que levava Shafiq foi alvo de sapatos e pedradas.

No Egito, país marcadamente religioso e conservador, as salas de votação são divididas por sexo. A juíza Heba Abdelkerim, responsável pela ala feminina do colégio Fatheia Bahig, no centro da capital, gabava-se de aplicar à risca as regras da Comissão Eleitoral. "Teve um marido que quis ir com a mulher atrás do biombo (onde as cédulas são preenchidas). Expulsei-o da sala na hora. A moça só pode ir sozinha votar, e assim ela foi", conta a juíza. Heba interrompia a conversa com a reportagem para ir atrás do biombo verificar a identidade das mulheres que usam o niqab, véu que cobre todo o rosto. A juíza tem de ver se o rosto é o mesmo da foto no documento. "Nenhuma delas reclamou, elas entendem meu trabalho."

A Justiça egípcia anunciou que a apuração terá início hoje, embora o primeiro resultado parcial seja só divulgado no sábado. Candidatos poderão entrar com recursos e, na terça-feira, os dois finalistas serão anunciados.

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